50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS VIII – Testemunho de Adão Cruz

50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS VIII

Testemunho de Adão Cruz

 

Assembleia Municipal de Vale de Cambra

EPISÓDIO 10/10 — A democracia é uma responsabilidade de todos

Que mensagem deixar às atuais gerações sobre democracia, participação cívica e serviço à comunidade é a pergunta mais difícil de responder na decorrência desta minha modesta intervenção.

Nunca fui pessimista, mas confesso que atualmente a minha desilusão é quase total.

Começaria por dizer às atuais gerações que não corram tanto e parem um pouco para pensar.

A vida é curta, muito curta, e por vezes muito feia em relação ao que sobre ela sonhámos.

Este mundo global, cenário de um desenvolvimento desigual, problemático e contraditório, dissolve espaços e tempos e impõe padrões e valores profundamente controversos.

Centrado numa competição onde só intervêm os grandes grupos económicos, com desmesurado poder de controlo do capital, dos mercados e das mentalidades, sempre envolveu grandes riscos e ameaças, não só para os trabalhadores de todo o mundo, mas para a humanidade em geral.

Esmaga os anseios sociais, sacrifica a diversidade e a soberania, globaliza tudo à custa das economias nacionais, à custa do que é local, do diferente e do singular.

Sob o eufemístico prisma do desenvolvimento, promove-se todo um conjunto de relações excludentes e politicamente totalitárias, gerando um infernal sistema progressivamente concentrador e destruidor.

Quanto mais desmesurados são a riqueza e o poder, maior a desigualdade, maior a injustiça, maior a ingerência no coração dos povos soberanos, maior o potencial de desordem e violência, como estamos a ver todos os dias.

Não pode haver democracia, digna deste nome, quando tal agressão à liberdade e à consciência transforma a interdependência em dependência, grande catalisador da exclusão social.

Quanto ao serviço à comunidade, dou a palavra aos massacrados e chacinados por esse mundo fora.

Que o digam todos os que, como nós, sentimos diariamente a nossa consciência espezinhada e a verdade enforcada em todos os passos da nossa existência.

Às gerações atuais diria novamente: parem um pouco para pensar a sério, e não como eles vos obrigam a pensar, sobre o que se passa por esse mundo fora, onde impera a invasão, o assalto, o domínio, o roubo e a morte.

Parem um pouco para pensar nesse horrendo genocídio da Palestina que me faz duvidar de mim mesmo e da minha existência humana.

Temo sobretudo a ingénua e ignorante aceitação de muitos dos factos, como legítimos, por parte de pessoas que nos parecem lúcidas e conscientes.

Lamento sobremaneira o não reconhecimento do verdadeiro inimigo e a maldosa e irresponsável conclusão de que são todos iguais.

Repugnam-me as falas mansas de comentadores e palestrantes cuja cara e cuja vida não enganam ninguém.

Repugna-me a complacência das autoridades nacionais e mundiais, a colaboração consciente de todos os governos lacaios.

Uma boa parte da humanidade está obtusa, egoísta, hedonista e alienada, o que faz com que tenha vindo a transformar-se numa massa amorfa, presa fácil de toda a mentira, de todo o mercantilismo sem valor e de todos os obscurantismos políticos e religiosos.

Tudo isto é tão terrível, tão bárbaro e tão cruel, que eu penso que estes satânicos assassinos perderam toda a espécie de sentimentos ditos humanos, transformando-se noutra espécie, que nem animal merece ser chamada.

Uma degenerescência humana, uma excrescência ou um tumor maligno, a que poderíamos chamar carcinoma da mente, com grande poder contagioso e invasivo, atingindo cada vez mais pessoas através dos neurónios da subserviência, da indiferença, da desumanidade e da cumplicidade.

Felizmente, ainda há milhões e milhões de seres humanos de todas as gerações, com o coração a bater muito forte, embora abafado pela desinformação globalizada.

Neles reside a minha esperança de, mais tarde ou mais cedo, conseguirmos abrir o luminoso caminho de um Mundo Novo.

Adão Cruz

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