(Continuação)
Estes são os elementos teóricos que definem a guerra europeia que também recai no Sul do Mundo. Bem sabemos que a Falange espanhola era um grupo activo e tinham suficiente dinheiro para a propaganda em prol da Monarquia e contra a República. Mas não apenas os espanhóis estavam divididos, também o dos outros países que entraram na guerra. O Sul do Chile, especialmente as cidades e a ruralidade de Puerto Montt e Llanquihue, especialmente Puerto Varas, reconstruída e refeita pelos alemães para se sentir em casa. Todas
elas estavam habitadas por uma extensa povoação de alemães e italianos. Tinham sido convidados ao Chile pelo Presidente da República Mauel Montt primeiro e pelo Ministro do Partido Liberal, liberal, Domingo Santa Maria,[1] nos tempos em que era Ministro de Hacienda do Presidente Manuel Montt[2]. A imigração começou em 1848, época em que na Europa reajustava os limites dos ducados e principados e monarquias para converter todos eles num grande Estado, agrupados por nacionalidades.
A ideia de convidar grupos colonizadores, foi de Manuel Bulnes[3], quando era Presidente do Chile entre 1841 a 1851. Os partidos políticos do Chile ainda não estavam formados: havia os realistas, que queriam a Monarquia Espanhola tornar a governar ao Chile; e os republicanos, entre os que se contava a o herói das guerras do Chile, Manuel Bulnes, de corte conservador. Pensava que na Europa havia muita gente e viviam em países estreitos. O Chile tinha muita terra e poucos habitantes. Foi assim que pensou e começou a convidar colonizadores alemães para influenciar a cultura da parte Sul do Chile. O Sul tinha um ambiente geográfico muito semelhante ao clima dos colonizadores alemães e se adaptaram bem. O problema era que fechava-se em cidades construídas por eles e deprecavam aos chilenos, que eram denominados de ma catadura, por outros palavras, mal criados, analfabetos e preguiçosos para trabalhar. Foi pelo menos o que me foi dito por uma família alemã que viviam de alugar quartos na parte rural de Puerto Varas. Não aceitei o repto e a minha mulher e eu, abandonamos a casa a seguir ao pequeno-almoço. As dificuldades dos chilenos com os europeus tinham começado bem antes das guerras europeias do Século XX que danificaram as relações chilenas com as colónias ai instaladas.
Era evidente que os comportamentos e hábitos eram diferentes: Europa tinha milhares de anos de hábitos e costumes, que denominamos cultura. O Chile era um país novo, colonizado pela coroa espanhola, que tratava mal aos aborígenes: sempre em luta com eles, a matar nativos para fundar cidades, a violar para satisfazer a sua luxúria, a se apropriar das terras que não eram deles, eram da nação Mapuche que habitava no Chile, escravizando-a e acorrentando-a, para ter servidumbre gratuita e impedida de fugir. Eram os nativos os que sabiam como tratar a terra, semear batatas, tratar do milho e das ovelhas, guanacos e vicunhas, eram o manual de agricultura dos invasores, até eles, pelo sentido da imitação, aprenderam estes trabalhos, em quanto os acorrentados iam ficando mais habituados a serem submissos, obedientes, e a pensar como os invasores por serem catequizados. Os baptizados começaram a aparecer e os sitio onde moravam os invadidos, eram chamados doutrinas. A sorte dos nativos foi que os que ensinavam, eram os jesuítas. Estes sacerdotes tiveram a inteligência de aprender a língua deles, os seus costumes e, passado o tempo de aprendizado dos Padres, é que ensinavam, sem forçar nem escravizar, a doutrina cristã que eles praticavam e partilhavam com os nativos. Houve conversões das divindades Mapuche para a divindade dos seus amigos jesuítas. Tive a grande sorte de encontrar, no sítio em que eu pesquisava, de encontrar livros escritos e impressos, de como é que era essa forma de doutrinação, como relato em outros livros escritos por mim. Ainda estão comigo. Por ser pessoas com comportamento cristão, a relação entre colonizados e sacerdotes, era amiga, serena e de trato amável. Fundaram as Missões, que era a casa do povo, comiam juntos, oravam, tornavam ao trabalho e a colheita era para eles e não para os cristãos ávidos de riquezas, esses que guardavam a colheita para eles e, a seguir, os fechavam em casas tipo cadeias. Não tinham um minuto de descanso, nem aos Domingos porque, como não eram cristãos, não tinham divindade para venerar. Esses espanhóis não entendiam que os Mapuche, especialmente o clã Picunche que tenho estudado ao longo de anos, tinham uma divindade para as actividades, outra para as árvores ou para toda actividade que empreenderam, sendo Ngünechen a divindade mais importante, em conjunto com Pillán, a divindade das árvores e doas matos.
Se Bulnes[4] importou europeus, era para fazer do Chile um país com centenas de anos de cultura. A verdade era outra, mas como bom conservador, quis ignorá-la.
A verdade era a citada antes: Chile era um país de mestiços, mas no seu conservadorismo, o quis ignorar e pensar melhor que era um país europeu. Para que fosse possível, era necessário trazer colonos europeus que, como referi mais acima, sentiam desapreço por nós. Não podiam sentir vergonha dos seus protectores. Havia produção de açúcar e outros bens, que tinham um arancel especial para os novos colonos.
Esses novos colonos causaram uma guerra dentro de outra guerra e longe do sítio onde ela acontecia. Entre esses colonos, havia uma imensidão de alemães que foram chamados à sua pátria pelo ditador da Alemanha. E lá foram todos. Como está retratado no livro de Vicente Blanco Ibañez: Os Quatro ginetes do Apocalipses[5]Com a guerra vêm a morte, a fome e a peste, Os quatro ginetes do Apocalipse, título do romance que culminará o seu grande sucesso como filme.
Retrata com minuciosidade como foi a guerra, a defesa dos cidadãos, especialmente a resistência francesa, sem a qual esse Estado nunca teria sido livre. Foi dos franceses que os outros países aliados contra o ditador alemão, aprenderam a comunicar-se em símbolos, juntando as frases a uma certa hora da noite, frases repetidas, com um significado sobre o que fazer. Nem todos eram admitidos no grupo da resistência. Era necessário passar muitas provas para convencer de se ser patriota.
Era o meu romance preferido, que consegui ler uma e outra vez, hábito derivado da Mulher do Engenheiro. A Mulher do Engenheiro estava temida. O único amor da sua vida andava a navegar por águas perigosas, infectadas de minas e de rédeas de metal caça submarinos. Para provar que não havia medo na sua alma, comprou e leu do começo até o fim, o livro do Hitler[6] A minha luta que, como nós limos Blasco Ibáñez do como começo ao fim, ele leu o livro do ditador com entusiasmo pelas palavras ensurdecidas que o jovem de 20 anos, Chanceler Alemão mais tarde e que teve ao mundo a beira do abismo pelos seus ideias exprimidos no livro mencionado, publicado em dois volumes. O Engenheiro tenta mostrar a sua mulher, que o fascismo e o franquismo eram mais daninhos e perigosos, que as ideas nazi exprimidas pelo genocídio alemão do ditador. Mas, o medo da mulher eram tão grandes, que não ficava convicta e temia pela vida do seu homem e pais dos seus filhos. Não leu o livro, foi- lhe explicado pelo Engenheiro.
No se engane o leitor. As palavras que seguem não são uma alegoria ao livro, bem ao contrário, é a melhor maneira de desdenhar o nazismo: Minha Luta (Mein Kampf) foi a melhor obra já escrita contra o nazismo. Já se escreveram livros, artigos, crónicas; fizeram-se filmes, peças de teatro. Por mais que demonstrassem o totalitarismo, a crueldade e a desfaçatez daquele regime, nada conseguiu superar o original.
A comunidade judaica, pelo menos alguns de seus sectores, batalharam para proibir a divulgação do livro. Não entendo. Quanto mais se conhecer, maior se tornará o repúdio e aversão.
É certo que os filhos de Israel foram perseguidos, mas não só. Também o foram os negros, os eslavos, membros das “Resistências”, maçons, todos originários de qualquer raça que não fossem considerados “arianos”. Em suma, perseguiu-se tantos quanto se opuseram aos planos megalomaníacos do pequeno austríaco que resolveu tornar-se rei do universo.
“Certa vez perguntei a um ex-capitão do exército mecanizado nazista: “Como foi possível que um dos povos mais cultos da Europa apoiasse um projecto neurótico e genocida como o dos nazis?” Respondeu-me, com certa simplicidade: “Perdêramos a I Grande Guerra, engenheiros, médicos e tantos reviravam latas de lixo para encontrar comida, os judeus, comerciantes em sua maioria, expunham suas mercadorias sugerindo serem beneficiados pela situação, era solo fértil para as pregações anti-semitas”.
Quanto ao anti-semitismo, além da postura racista inquestionável e confessa, havia uma estratégia de propaganda. Hitler entendia que qualquer movimento precisava de inimigos para fortalecer-se. Subestimando a capacidade intelectual do povo, afirmava explicitamente, que as massas tinham dificuldades de entendimento e compreensão. Daí a necessidade de reduzir os vários adversários a um inimigo único: os judeus. As críticas da imprensa eram escritas por judeus, que também dominavam a literatura, as artes e o teatro. França e Inglaterra estavam controladas pelo capitalismo judaico. Os judeus levavam imigrantes negros para contaminar as raças europeias. Os marxistas e revolucionários russos eram judeus. A maçonaria era controlada por judeus. Uma generalização absurda que, infelizmente, funcionou.
Penso que “Minha Luta” deva ser amplamente conhecido, um texto preconceituoso, presunçoso e que traz embutidos neuroses e psicoses indiscutíveis, conhecê-lo talvez seja a melhor forma de impedir que aquelas ideias ressuscitem. Além disso sou contra qualquer forma de censura. Os romanos incendiaram a Biblioteca de Alexandria, Hitler e Stalin queimaram livros, Getúlio Vargas também, os militares de nossa recente ditadura inclusive, e outros tantos, a humanidade só perdeu.
Por isso tudo divulgo o livro, uma peça de propaganda bastante eficiente, mas apenas no seu tempo e contexto. Devemos ler, analisar, discutir e produzir vacinas. Como os vírus, as ideias absurdas tendem a retornar fortalecidas e resistentes; só conhecendo poderemos enfrentá-las.[7]
[1] Domingo Santa María González (Santiago, 4 de agosto de 1824 – † Santiago, 16 de junio de 1889) fue un abogado y político chileno, que ejerció como Presidente de Chile entre 1881 y 1886.
[2] Manuel Francisco Antonio Julián Montt Torres ( * Petorca, Región de Valparaíso, Chile, 4 de septiembre de 1809 — † Santiago, Chile, 21 de septiembre de 1880)[1] fue el Presidente de Chile entre 1851 y 1856, siendo reelegido inmediatamente por un segundo periodo entre 1856 y 1861. Perteneció a la emblemática familia Montt. Los Montt son una familia chilena, la cual ha dado académicos, políticos entre otras facetas de desempeños al desarrollo del país, tres de cuyos miembros fueron presidentes de Chile.
[3] Manuel Bulnes Prieto (Concepción, Chile, 25 de Dezembro de 1799 – Santiago, Chile, 18 de Outubro de 1866) foi um militar e político chileno, presidente desse país entre 1841 e 1851.
Participou na guerra para independência da Espanha, lutando inclusive contra seu pai, que estava no grupo realista. Posteriormente, participou nas campanhas militares contra bandidos.
Participou em 1829 em uma revolução contra o governo liberal e posteriormente na guerra contra a Confederação Peru-Boliviana, vencendo as tropas de Andrés de Santa Cruz na batalha de Yungay em 20 de Janeiro de 1839, depois do qual, foi recebido no Chile como herói.
Foi nomeado ministro pelo presidente José Joaquín Prieto, e logo em seguida, foi candidato a presidência nas eleições de 1841.
[4]A maior parte da população chilena está concentrada na faixa central do país, só na região metropolitana de Santiago, há mais de 5 milhões de habitantes, quase 40% da população do Chile. Ali, a densidade demográfica é de 336 hab/km².
A população do Chile é amplamente mestiça, formada pela mistura racial dos conquistadores espanhóis e dos povos indígenas, fato que ocorreu durante o século XVII. A esta mistura foi adicionada uma maior quantidade de sangue espanhol, na medida em que o fluxo migratório de espanhóis aumentava e os índios eram mortos, durante a colonização. A população indígena do Chile (aproximadamente 5%) é formada de mapuches (aproximadamente um milhão, no sul do país), aymaras, atacamenhos, kwashkar e yaganes (em ilhas do extremo sul) e rapa nuí (estes, na Ilha de Páscoa).
Alguns grupos de europeus chegaram ao Chile para se estabelecer nas regiões portuárias e aos extremos sul e norte, durante os séculos XIX e XX, entre eles, iugoslavos, franceses, ingleses, irlandeses e italianos.
Em 1848 o governo chileno patrocinou a colonização alemã, a fim de povoar a região sul do país, à medida que o tempo passava, a presença alemã influenciou a cultura no sul do Chile, principalmente nas cidades de Valdívia, Osorno e Llanquihue. Deve-se destacar também a presença da colônia palestina, a mais numerosa desta origem fora do mundo árabe.
Historicamente, os principais grupos de imigrantes correspondem àqueles que vêm dos países que fazem fronteira com o Chile. A colônia peruana é a maior, seguida da argentina. Um dos principais fatores que tem produzido esta imigração foi o importante crescimento da economia chilena, durante as últimas décadas. Da mesma forma, a imigração de outros países latino-americanos tem também sido de grande importância.
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[5] Vicente Blasco Ibáñez (Valência, 29 de Janeiro de 1867—Menton, França, 28 de janeiro de 1928) foi um escritor, jornalista e político espanhol.
[6] Hitler, Adolf, 1925: Mein Kempf, Editora Eher Verlag Escriro aos 36 anos.O texto pode ser lido em:
http://radioislam.org/historia/hitler/mkampf/por/por.htm
[7] Retirado do Apresentação do livro de Nélson Jahr Garcia, ao que se pode aceder em http://radioislam.org/historia/hitler/mkampf/por/por.htm#1
