O que ressente hoje um bom número de gregos foi desde há muito tempo descrito com precisão profética pelo maior poeta grego moderno, Constantin Cavafy (1863-1933), num poema intitulado Uma grande colónia grega, 200 A.C., escrito em 1928: “talvez seja a hora, como muitas pessoas pensam / para mandar vir um controlador para a reestruturação do Estado. / Contudo, o inconveniente e a dificuldade /com esses controladores é que eles fazem / histórias para nunca mais acabar / com tudo e mais alguma coisa. (…) “Eles estão sempre a perguntar / pelo mais pequeno detalhe e tudo passam a pente fino /, e rapidamente exigem reformas radicais / exigindo que elas sejam aplicadas sem demora. / E mais, eles tendem a impor sacrifícios.” (Tradução de Dominique Grandmont, colecção poesia/Gallimard).
À beira da falência, a Grécia beneficiou, em 21 de Julho, de um novo plano de ajuda de 160 mil milhões de euros, um ano após o empréstimo de 110 mil milhões da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em troca, o país deve aplicar medidas de rigor drásticas, rigidamente controladas pelos financiadores. Os representantes da “Troika” (Comissão Europeia, FMI, Banco Central Europeu) estão permanentemente em Atenas e controlam a aplicação das medidas de austeridade.
Toda a gente está a apertar o cinto. O Estado reduziu fortemente o seu défice no ano passado, de 15,4 para 10,5% do PIB. Mas isso não é suficiente. O governo foi forçado a um segundo plano de austeridade. “E mais eles avançam na sua investigação, / mais eles encontraram novas despesas para eliminar: / como se isso fosse fácil de fazer “, diz-nos ainda Cavafy, o poeta de Alexandria – que quase nunca viveu na Grécia.
Milhares de pessoas protestaram, e por vezes, violentamente, contra as medidas de austeridade. Em Atenas, no Parlamento, na Praça Syntagma os “indignados” colocaram um cartaz em que se representa Georges Papandreou, como o “melhor empregado do ano” do FMI. Sobre o papel da “Troika”, o Santo-Sínodo da muito conservadora Igreja Ortodoxa grega denunciou uma “ocupação estrangeira”.
As palavras são fortes num país dominado durante quatro séculos pelo Império Otomano e pela ocupação alemã e búlgara – ocupação feita durante a Segunda Guerra Mundial e que foi particularmente brutal. Mas a história trágica da Grécia moderna é conhecida no resto da Europa.
Desde a sua origem, em 1830, as “grandes potências” olham pelos interesses da jovem nação que nasceu endividada. O novo Estado deve reembolsá-las pela sua assistência durante a revolução grega. Elas entendem-se para impor o filho do rei da Baviera como rei dos gregos, Otto, Duque da Baviera, que trouxe muitos de seus compatriotas para administrar o país que ele devia dirigir. “As receitas do Estado são quase inexistentes, escreve o historiador Nicolas Bloudanis, em Les faillites greques : une fatalité historique?” (ed. Xérolas). “A Grécia não pode pois subsistir sem assistência pecuniária permanente das potências protectoras, sob a forma de empréstimos que acabam por aumentar de forma desproporcionada a dívida externa do país”.
Enquanto a Grécia se apronta uma vez mais para uma situação de incumprimento (parcial), a história das falências gregas é agora bem conhecida: cinco incumprimentos desde 1830. Depois da situação de incumprimento de 1893, entrou em vigor uma Comissão Financeira Internacional, com britânicos, franceses, italianos, alemães e austríacos, que controlava o orçamento do Estado.
De acordo com Nicolas Bloudanis, “esta colocação da Grécia em situação de tutela internacional contribui grandemente para a resolução da situação económica e financeira”. A influência da Grã-Bretanha e depois a dos Estados Unidos, irá substituir as “grandes potências”, do século XX, marcada por uma guerra civil depois de 1945 e pela ditadura dos coronéis entre 1967 e 1974. A memória destas influências estrangeiras continua muito presente na Grécia.
“O Estado grego é ele ainda independente quando os especialistas da “Troika”vêm mensalmente verificar a aplicação das suas ordens?”, pergunta Joëlle Dallègre, Professora do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco), em La Grèce Inconnue d’aujourd’hui (Harmattan). O Presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, reconhece-o ao explicar, a partir de Julho, que “a soberania será enormemente restrita”.
Esta tutela internacional vai durar durante o tempo do reembolso do empréstimo, que pode ir até aos trinta anos. A “Troika” e o Governo grego asseguram que a situação económica vai melhorar de forma sustentada e duravelmente. Mas eminentes economistas estão cépticos. A população grega tem medo de estar a fazer sacrifícios para nada.
Constantin Cavafy expressa ainda estas preocupações: “E quando, com a sorte pelo seu lado, eles tiverem concluído o seu trabalho, / e uma vez que tudo será passado em revista e totalmente dissecado com cuidado / eles ir-se-ão embora, embolsando os seus justos salários /e nós iremos ver o que vai restar depois / de um rigor cirúrgico.”
