Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Sylvain Cypel, New York, correspondente do Le Monde
As gentes de Goldman Sachs sentir-se-ão aliviadas, uma vez que este livro não inclui nada que possa ser objecto de um processo judicial concluiu um perito financeiro entrevistado no programa de televisão americano ’60 minutos’ a, propósito do livro de Greg Smith, antigo alto-quadro do Goldman Sachs. AFP/CHRIS HONDROS
Não, através da publicação do seu livro, Greg Smith não é desleal para com os seus antigos empregadores do banco de investimento Goldman Sachs. “Amei este lugar.” Eu aí coloquei muito do meu coração e da minha alma. Não vejo aqui nenhuma traição. “São os actuais dirigentes do Goldman que não pensam no interesse da empresa a longo prazo” , disse Greg Smith ex-trader do banco Goldman Sachs quando era interrogado no domingo, 21 de Outubro, num programa da televisão americana , chamado os ‘ 60 minutos ‘.
Ele deu a impressão de estar a ser um homem sincero, gradualmente horrorizado com o que ele descobriu quanto às mentalidades no seio do banco, mas não fez nenhuma revelação. As gentes de Goldman Sachs ficarão aliviadas , neste livro não há nada que possa ser objecto de um processo judicial, concluiu um perito financeiro entrevistado por sua vez no mesmo programa.
E isto é o contrário do famoso Liar’s Poker, editado em 1989 onde o trader Michael Lewis contou a sua experiência na área de corretagem de Salomon Brothers e dava conta com uma precisão impressionante da substância e da lógica que estava por detrás das “junk bonds”. Porque é que eu deixei o Goldman Sachs (à venda nos Estados Unidos logo na segunda-feira, 22 de Outubro) tem mais a ver com um jornal íntimo do que com uma crónica esclarecida e esclarecedora.
Aí se encontram as palavras utilizadas pelos senadores americanos durante as audições dos dirigentes do banco: “ganância”, “hipocrisia”, ‘toxicidade’… Aí se lê sobre a ganância e sobre a falta de escrúpulos do meio financeiro, onde se têm ciúmes uns dos outros, aí se lê sobre os seus gostos pelos luxos que caracterizam este meio, até a perda do sentido da realidade, como foi evidenciado com essa farra dos executivos em Las Vegas com drogas e prostitutas numa instituição que se quer austera.
DETALHES Curiosos
Aí se lê como Goldman Sachs serviu como “Conselho” ao governo grego ao mesmo tempo que se enriquecia com a falência das finanças públicas de Atenas; como é que Goldman Sachs vendia aos seus clientes os produtos financeiros de que um outro serviço, num outro andar do mesmo banco se desembaraçava deles porque estes apostavam no seu colapso nos mercados financeiros . Também aqui se lê até mesmo sobre o modo como um produto financeiro obscuro chamado Clorox, foi colocado junto de fundações ou de doações de caridade.
Em suma, trata-se de confirmações, de detalhes sórdidos, às vezes, mas nada de novo. Para um artigo no New York Times, isso sim; daí a fazer um livro… Isto é o que os observadores de Wall Street dizem actualmente sobre o livro.
Goldman Sachs não fez muito para ter medo. Mas nunca se é demasiado prudente: depois de ter lançado uma operação para desacreditar Greg Smith, o banco deixou escapar, na sexta-feira, os elementos de um relatório “interno” sobre o seu ex-empregado. Este é aqui retratado como sendo uma pessoa instável, mal notado pela avaliação interna, um homem que procurou vingança depois de lhe ter sido negado um aumento.
Goldman Sachs, em geral, não oferece presentes aos quadros com “baixo desempenho” (rentáveis)… Então, como podemos explicar que um vice-presidente considerado tão incompetente como Greg Smith possa ter permanecido cerca de doze anos no prestigiado banco? Greg Smith também encontrou alguns defensores. Segundo Dealbreaker, um site “insider” (informado do interior) em empresas de Wall Street, um elevado número de gerentes de nível médio de GS considera o livro “credível” assim como os comportamentos que ele descreve.
