D. SANCHO I (reinou de 1185 a 1211)
Segundo filho de D. Afonso Henriques e da rainha D. Mafalda, D. Sancho I torna-se herdeiro do trono por falecimento, ainda criança, do primogénito Henrique. Segundo rei de Portugal, nasceu em Coimbra em 1154 e casou em 1174 com D. Dulce de Aragão, filha da rainha de Aragão e do conde de Barcelona, da qual pouco se sabe ao certo acerca da sua vida. Teve 11 filhos de D. Sancho I: Teresa, Constança, Mafalda, Henrique, Pedro, Raimundo, Sancha, Branca, D. Afonso II, Berengária e Fernando.
Seu pai desde muito novo o quis adestrar para continuar a missão de conquista a que dedicara toda a sua longa vida. Ainda não contava mais de 13 anos quando o pai, julgando propício ao seu intento andar o rei leonês Fernando II, seu cunhado, ocupado na recuperação de Toledo, de que o rei de Castela, Afonso VIII, se havia apoderado, procurou, por seu turno, tomar Cidade Rodrigo, confiando ao jovem filho D. Sancho o comando virtual da expedição. Mas o rei de Leão acudiu de pronto à defesa da cidade ameaçada e, investindo contra as hostes portuguesas, já quando se aproximavam dos muros, matou e aprisionou os que não tiveram tempo de fugir. Salvo desse desaire, foi D. Sancho, em 1170, armado cavaleiro por seu pai, em Coimbra, promovendo-lhe em 1174 o casamento com D. Dulce de Aragão.
Desde a ascensão ao trono em 1185, até à empresa de Silves em 1189, Sancho 1 empenhou-se numa actividade militar contra o seu cunhado Fernando II de Leão, que tendo invadido a Beira foi vencido em Celorico.
D. Sancho I foi chamado de Povoador em virtude de ter colocado habitantes em lugares onde não havia ninguém para os trabalhar e defender e que os árabes podiam ocupar. Convidou muitos colonos estrangeiros para aqui se fixarem. Utilizou, tal como seu pai, os serviços da gente ligada à Igreja, para convencer as pessoas a viver em Portugal. Depois da conquista, era necessário o povoamento, e por todas as formas tomou D. Sancho I tal empenho. Mas cumpria dar continuidade à conquista do Sul.
Como na Primavera de 1189 arribasse a Lisboa uma frota de Cruzados, logo combinou que, seguida de barcos portugueses, fosse ao longo da costa meridional do Algarve em fossado marítimo. E em Julho do mesmo ano iniciava-se a conquista de Silves, a cidade mais poderosa que os Árabes conservavam a sudoeste da Península. Cerco longo, terrível em morticínios, de trágica resistência na fome, na sede, na pestilência. Combates subterrâneos, nos pontos de encontro das sapas que de um e outro lado se escavavam. E quando a cidade, famélica, prostrada pela doença e pela miséria, se rendeu, foi o horror da pilhagem pelos Cruzados, apesar de todos os esforços para a evitar. A ganância norteava os cruzados, que recusaram a proposta de D. Sancho I de uma compensação de 10 000 morabitinos. A frota estrangeira carregou despojos de alto valor, quase toda a riqueza que havia na cidade.
Atravessado pelos problemas militares, o reinado de D. Sancho I foi, ainda assim, assinalado pelo aumento do tesouro régio e por uma lenta consolidação do poder do monarca sobre o seu território.
A partir de 1190 acentuou-se a instabilidade político-militar. O exército almóada fez reduzir novamente a fronteira portuguesa, confinando-a praticamente ao norte do Tejo. Pouco depois, iniciou-se um período de quebra de paz com o reino de Leão, com intervenções militares de parte a parte, que obrigaram o monarca português a redobrar a vigilância e a intensificar o apoio à sua fronteira oriental. À instabilidade militar vieram somar-se surtos de fome, peste e outras calamidades, gerando-se conflitos sociais, sobretudo nos centros urbanos mais importantes. Os marcos mais importantes desta crise foram os conflitos de jurisdição em que estiveram envolvidos o bispo do Porto e o bispo de Coimbra contra os habitantes das respectivas cidades, encorajados pela Coroa. Episódio que dá certa evidência à afirmação segundo o qual as lutas de cristãos e maometanos na Península tiveram o carácter de lutas civis, ou seja entre gentes da mesma nação, do mesmo nível moral e interesses fundamentalmente idênticos, determinando alianças ou hostilidades longe de qualquer motivo religioso.
Foi o que se verificou na luta travada entre príncipes de um e outro lado: Leão, Navarra e Marrocos, aliados contra Portugal e Castela. Em 1200, a paz põe termo, talvez por intervenção do Papa, à escandalosa confusão dum facciosismo levado ao seu extremo, não por espírito de caridade, mas por impulsos de ambição egoísta.
As relações de D. Sancho I com o clero não decorreram no melhor entendimento, devido à firmeza do poder real em face dos privilégios e imunidades eclesiásticas.
No que respeita a Roma, sabe-se que o monarca procurou subtrair-se ao pagamento dos dois marcos de ouro anuais, que o progenitor se havia comprometido a pagar a Alexandre III. Invocando as mais variadas razões, durou anos a escusa régia perante os repetidos protestos do Papado. Talvez os conselhos do chanceler Julião Pais houvessem contribuído para a renitência de D. Sancho I, pois tratava-se de uma prestação monetária que prejudicava o tesouro público. Só depois da vinda a Portugal, em 1198, de um legado de Inocêncio III foi possível resolver o dissídio com a entrega a Roma de 504 morabitinos, que correspondiam a quase 20 anos de atraso no pagamento do censo.
Sancho I foi um excelente gestor. Conseguiu, sem sobrecarregar o povo com impostos, aumentar substancialmente o tesouro real. Fundou hospícios e albergarias. Dedicou-se ao repovoamento de terras abandonadas. Para além disso, não esqueceu a cultura, pois concedeu ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra fundos para bolsas de estudos em França. Como balanço definitivo do seu reinado, é de justiça assinalar o bom senso e tino político revelados quando, acertadamente, abandonou, por carência de meios em homens e apoios externos, a temerária política de conquistas militares, para se votar quase exclusivamente à consolidação das novas terras conquistadas por seu pai, mediante processos administrativos que lhe teriam aconselhado os seus acessores da cúria real, entre os quais o chanceler Julião, seu notário, seria o mais esclarecido. A partir de 1183, é a este senhor de Ceira que é entregue a chancelaria cuja responsabilidade viria a assumir até 1215, ano da sua morte. Este chanceler Julião, nas contendas com o Papa Inocêncio III, soube com serena firmeza e tacto diplomático, moderar o ânimo arrebatado e combativo de D. Sancho.
D. Sancho I contou, também, com o apoio do conde D. Mendo de Sousa que foi seu mordomo-mor até ao final do reinado. O segundo rei de Portugal morreu em Santarém em 1211, aos 57 anos. À imagem do seu longo reinado, a sua sucessão esteve longe de ser pacífica. Acabou, no entanto, por prevalecer a vontade do rei na atribuição da coroa ao primogénito varão, D. Afonso II, e, com ela, a unidade do reino. D. Sancho lutou com dificuldades de toda a espécie, desde a peste, tremores de terra, fome e guerras. Mesmo assim deixou consolidado e rico o pedaço de terra que pouco ia além de Lisboa.
Mestre Julião e Mendo de Sousa foram homens do rei D. Sancho I.
Mestre Julião (1160-1215)
Julião Pais, letrado notável do terceiro quartel do século XI foi chanceler e notário de D. Sancho I, desempenhando praticamente funções de seu primeiro-ministro. Foi nomeado chanceler-mor do reino em 1183 em substituição de Pedro Feijão e após uma vacatura de cerca de 2 anos a que não será estranha a derrota de Arganal. Este chanceler Julião Pais iria estender a sua influência e o seu cargo ao longo de 3 reinados, pois só viria falecer em 1215. Foi pai do primeiro cardeal português de nome Egídio.
A sua nomeação e a longevidade, que obviamente ninguém poderia prever, constituíram o primeiro passo para a consolidação de organização administrativa do país. Era ao chanceler-mor que estava confiado o selo real com que eram autenticados os diplomas régios. As suas funções eram amplas e incluíam o controlo dos diversos funcionários espalhados pelo País. Pode comparar-se ao que hoje em dia consideraríamos um primeiro-ministro.
Nesta época, o governo não tinha sede certa e permanente. As frequentes viagens da corte faziam com que o centro da administração fosse a cidade, a vila ou o lugar onde o rei se encontrava. Na sua tarefa de governante, o rei era auxiliado pela Cúria Régia, conselho de grandes do reino que o acompanhavam. Dessa Cúria, além do alferes-mor, do mordomo e de outros, fazia parte o chanceler.
Era a este alto funcionário que estava confiada a guarda do selo real que autenticava todos os documentos régios. Superintendia ao trabalho dos funcionários da chancelaria, tanto dos escrivães, como dos notários; todos os actos régios passavam pelas suas mãos, já que muitas vezes supervisionava a redacção ou redigia ele próprio documentos régios e era quem os autenticava com o selo pendente. Além disso, o chanceler era também o chefe da magistratura. Sucedeu que D. Afonso Henriques, após o desastre de Badajoz em 1169, altura em que partiu uma perna, foi obrigado a uma vida mais sedentária. Nessa ocasião, estabeleceu-se em Coimbra, cidade a que estava ligado Julião Pais, quer por laços familiares quer pela posse de bens. A partir de 1183, é a este senhor de Ceira que é entregue a chancelaria cuja responsabilidade viria a assumir até 1215, ano da sua morte.
O Infante D. Sancho já participava na maior parte dos actos públicos durante os últimos anos do reinado do seu pai. Mas quando chegou o momento de lhe suceder no trono, a continuidade da administração foi sobretudo assegurada por este célebre chanceler que, em 1185, data da morte de D. Afonso I, exercia o cargo havia dois anos. Gerindo os negócios públicos com grande sabedoria, manteve as funções durante todo o reinado de D. Sancho I e ainda nos primeiros tempos do reinado de D. Afonso II.
Em plena Idade Média, permitiu-se dirigir violentas admoestações ao Papa e nada de mal lhe aconteceu. D. Afonso Henriques, D. Sancho I e D. Afonso II confiaram-lhe o cargo de chanceler, a que hoje corresponderia, talvez, o de primeiro-ministro. Julião Pais teve um papel determinante na afirmação do poder real perante a Igreja, na organização da chancelaria régia, na estruturação administrativa.
O título de Mestre que lhe era atribuído tornou-se um reconhecimento da sua grande sabedoria e dos vastos conhecimentos jurídicos que dele fizeram um dos vultos a cuja acção se deveu a consolidação do reino português. Deve ter sido esse valor que fez com que D. Afonso Henriques, desejando beneficiar o seu ilustre chanceler, Mestre Julião Pais – um dos homens mais importantes do Portugal de então – tenha justamente escolhido Ceira e o seu termo para constituir o senhorio que lhe concedeu em 1180.
Mestre Julião Pais faleceu em 1215 e está sepultado da Sé de Coimbra
(A seguir: Mendo de Sousa)
