CHAMARAM-LHE PORTUGAL -9 – por José Brandão

Batalha de Navas de Tolosa

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Assim, ao mesmo tempo que a gente de socorro enviada a Toledo voltava a Portugal com os brios que costumava dar o triunfo, a luta da fronteira necessariamente se tornava mais frouxa até cessar de todo com a renovação da paz. Desassombrado da guerra estrangeira, o príncipe português deu novo vigor às hostilidades contra as irmãs. Os castelos que elas e os seus partidários defendiam foram violentamente acometidos. […]

Sancho I fora cobiçoso e ajuntara grandes tesouros, talvez ilicitamente; mas, não obstante isso, rei mais que nenhum popular e municipal, erguera de suas ruínas um avultado número de antigas povoações, fundara muitas outras de novo, e não se poupara, apesar de graves contratempos, a cobrir de colónias, até estrangeiras, os sítios mais despovoados do reino. Além disso, respeitara as largas doações e legados que Afonso Henriques fizera aos seus companheiros de glória, aos mosteiros e às catedrais. Usando de política diversa, Afonso II semeara a ventania e ceifara a tempestade. As riquezas distribuídas por Sancho entre todos os filhos trouxeram os ódios fraternos. A guerra civil consumiu o melhor dessas riquezas, e os maiores estragos do reino procederam, como vimos e ainda veremos, das dissenções entre os membros da família real. A saída dos infantes Pedro e Fernando para fora do reino, a guerra civil ateada dentro deste por Teresa, Sancha e Branca, os vãos queixumes de Mafalda e as tentativas do bastardo Martim Sanches contra seu irmão que em breve havemos de narrar seriam indícios bastantes para atribuirmos a culpa de tantos desastres antes à prepotência e avareza de um indivíduo que ao procedimento de muitos se um certo número de factos característicos do reinado de Afonso II não definissem bem a índole deste príncipe. Posto que na luta com Teresa e Sancha, Afonso II, limitando as primeiras pretensões, chegasse a ter a razão pela sua parte, ele mesmo veio a reconhecer indirectamente que fora injusto a princípio, mandando que, no caso de ele morrer, se restituíssem a Mafalda, já elevada ao trono de Castela (o que lhe dava forças para sustentar seus direitos), quaisquer somas vindas ao fisco que lhe fossem devidas em Portugal, apenas ela as exigisse. Assim, cremos que das miras ávidas que já seu pai nele mostrava descortinar nas prevenções tomadas antes de morrer, lhe redundara afinal mais dano que utilidade.

No meio, porém, de um sistema que os documentos nos obrigam a julgar mesquinho e insuficiente Afonso lI soubera, ao menos, afastar com arte o perigo mais formidável, as discórdias com o clero, se exceptuarmos uma violenta mas passageira contenda com o bispo de Coimbra D. Pedro de que depois falaremos. Vimos as largas concessões que fizera à igreja no princípio do seu reinado: a mesma lei pela qual pretendera pôr barreira parcial ao aumento das riquezas eclesiásticas, proibindo aos mosteiros e igrejas a aquisição de bens de raiz por título de compra, era impunemente violada ou iludida. Foi deste modo que mereceu ao clero tantos gabos de bom cristão pelos primeiros anos do seu governo, como de maldições e injúrias lhe foram vertidas sobre o túmulo por causa dos derradeiros. […]

Entre os muitos filhos bastardos de Sancho I, Martim Sanches distinguia-se pelos dotes mais estimados naquela época, a força e o esforço, no que poucos cavaleiros de Portugal podiam competir com ele. O partido que seguira durante as guerras civis ignora-se; mas é natural que se inclinasse ao das infantas, porque dele não se encontra o menor vestígio na corte de Afonso II. Não melhor se conhecem os motivos que teve para abandonar a pátria e a época precisa em que tomou tal resolução, o que, entretanto, parece ter sido pelos anos de 1216 ou 1217, quando a causa de Teresa e de Sancha estava inteiramente perdida. Passando a Leão, Afonso IX recebeu-o no número dos seus barões e deu-lhe o governo de dois distritos, o de Toronho e o de Limia, aquele na fronteira de Entre Douro e Minho, este na de Trás-os-Montes. Descontente Martim Sanches de seu irmão, era natural conservasse relações de amizade com o metropolita de Braga, também descontente. […]

O bastardo Martim Sanches, cujo valor e ousadia bem mostravam que lhe fervia nas veias o sangue de Sancho I, fora revestido por Afonso IX da suprema autoridade militar na fronteira de Galiza pelas raias setentrionais de Portugal. Com os desgostos que havia entre aquele ilustre cavaleiro e seu irmão nada mais fácil do que suscitar-se um motivo para rompimento entre os dois estados. Assim sucedeu. Qual ele fosse ao certo, ignora-se; mas pode-se, acaso, conjecturar que, possuindo o arcebispo de Braga o couto de Ervededo, os oficiais a quem o rei encarregara do seu feroz desagravo passassem as fronteiras e fossem praticar na Galiza as mesmas devastações feitas nos bens patrimoniais de Estêvão Soares ou, pelo menos, confiscá-los, como tinham feito aos rendimentos e propriedades da mitra de Braga no Além-Douro. Memórias antigas aludem mais ou menos especificadamente a essa guerra que então se levantou entre os dois países, e outras, de cuja autenticidade não há certeza absoluta, referem as particularidades dela, atribuindo tanto umas como outras ao rei português a culpa do rompimento. Refere-se que homens de armas ou oficiais públicos de Afonso II passaram a fronteira para se apoderarem em terra de Límia não sabemos do quê. Estava ausente Martim Sanches, mas, voltando e sabendo daquela violação do território que lhe fora confiado, primeira e segunda vez mandou pedir a seu irmão que lhe reparasse os roubos perpetrados. Baldadas as diligências, Martim Sanches recorreu à força para se desagravar. Os homens de armas dos distritos de Toronho e Límia e do vale de Varonceli reuniram-se às bandeiras do seu chefe e invadiram com ele a província de Entre Douro e Minho, marchando sobre Ponte de Lima. Logo correra notícia dos preparativos que se faziam em Galiza, e Afonso II com as forças da província estava preparado para resistir à invasão. Os dois exércitos avistaram-se. Se acreditarmos a tradição, o bastardo de Sancho I sentia remorsos tendo de combater soldados que se abrigavam à sombra das bandeiras sacro-santas da pátria e assim, enviou mensageiros ao irmão, pedindo-lhe se retirasse a distância de uma légua, onde ele não visse esvoaçar o pendão real. Afonso II satisfez-lhe completamente o desejo. Recuando com a gente de guerra que tinha consigo até as margens do Ave, só parou em Santo Tirso, donde, abandonando os seus ricos-homens, veio acolher-se ao sul do Douro no castelo de Gaia. Era, ao menos uma vez, generoso para com seu irmão, concedendo-lhe para que evitasse combater contra os pendões reais doze léguas de intervalo em lugar de uma que ele apenas pedia. O que os documentos até aqui nos têm revelado acerca do génio pouco militar de Afonso II legitima a suspeita de que a tradição do pudor patriótico de Martim Sanches não seja mais do que uma novela tecida para corar a vergonhosa retirada do príncipe diante daquele que melhor guardara as tradições de esforço dos seus comuns antepassados. Seja o que for, diz-se mais que os capitães portugueses, saindo de Santo Tirso, avançaram de novo para o norte enquanto Martim Sanches entrava em Barcelos. Um filho de Gonçalo Mendes, Mem Gonçalves de Sousa, João Peres da Maia, Gil Vasques de Soverosa e outros barões de Além-Douro que conduziam as tropas de Portugal pararam a uma légua de distância. Tendo recusado mandar a Martim Sanches algumas vitualhas que o altivo fronteiro lhes ordenara enviassem, marchou ele a encontrá-los. Travou-se um combate junto do mosteiro da Várzea. Fizeram-se prodígios de valor, e João Peres da Maia, só com uma lança nas mãos, derribou sete cavaleiros da Galiza: mas, enfim, os portugueses tiveram de ceder ao valor impetuoso do destemido bastardo. Retiravam-se para Braga perseguidos pelos vencedores, e Gil Vasques era um dos que cobriam a retaguarda. Martim Sanches, acometendo-o, fez-lhe voar das mãos a espada. Era o prisioneiro seu padrasto, tendo casado com D. Maria Aires de Fornelos depois da morte de Sancho I. Martim Sanches, contentando-se com havê-lo desarmado, lhe deu generosamente a liberdade. Debalde os vencidos tentaram melhorar-se: desbaratados sucessivamente junto de Braga e de Guimarães, tiveram de se encerrar dentro dos muros desta vila e ver dali os soldados leoneses devastarem e roubarem impunemente aqueles arredores enquanto Afonso IX, sem cuja anuência por certo o seu fronteiro de Toronho e Límia não intentara a guerra, entrando por Trás-os-Montes, acometia e tomava Chaves. Mas, ou porque os leoneses julgassem vingada a afronta ou porque Afonso lI oferecesse reparação das injúrias, renovou-se a paz entre os dois estados, ficando, todavia, o rei de Leão senhor de Chaves, que só veio a ser restituída em tempo de Sancho II, servindo de pretexto para aquela retenção a segurança das terras da infanta, rainha D. Teresa, que, juntamente com D. Sancha, de novo movera litígio ao irmão perante Honório III sobre as suas inveteradas contendas, litígio para resolver o qual o papa nomeara juízes os bispos de Burgos e de Lugo e o deão de Compostela. Martim Sanches voltou então à Galiza rico de despojos e no ano seguinte ou no imediato, enviado à frente do exército leonês contra os sarracenos, foi ganhar mais honrados louros na batalha de Tejada, em que obteve uma célebre vitória.

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