CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 8 – por José Brandão

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D. Afonso II, o Gordo

(reinou de 1211 a 1223)

«Afonso, o herdeiro da coroa, contava vinte e cinco anos quando seu pai faleceu. No tempo das campanhas deste, tanto contra os sarracenos como contra Leão, era o infante mui moço, e à curta idade acrescia o ter uma saúde tão débil que fazia duvidar Sancho I que chegasse a sobreviver-lhe, e ainda mais quando, entrado na adolescência, o acometeu violenta enfermidade, cuja cura só se atribuiu a milagre. Tinham vindo após isso tempos de paz exterior, e os cuidados do rei e dos barões e cavaleiros portugueses haviam-se voltado inteiramente para a repovoação do território e para as contendas entre a coroa e o clero, que, quase exclusivamente agitaram os últimos anos do reinado que findava. Por estes motivos Afonso II não podia ter sido educado, como Sancho I, nos campos de batalha e no trato das armas, única escola segura da triste arte de assolar a terra. Chegando à idade na qual, pela situação em que nascera, podia já e devia intervir nos negócios públicos não achara tão vivos os ódios contra os sarracenos e leoneses que haviam sido o afecto principal de duas ou três gerações, como os que se originavam das dissenções civis entre a monarquia e a ordem sacerdotal. Ele próprio, posto que não houvesse contribuído para nascerem tais dissensões, oferecera involuntariamente ensejo para se manifestarem e, para assim dizer, recebera no rosto o arremesso da luva que Martinho Rodrigues atirara a seu pai. Era impossível que o infante não tomasse parte activa nos sucessos que ocorreram em consequência desse rompimento: incitavam-no para isso a própria injúria e o interesse da coroa que havia de herdar. E quando Sancho, aterrado pela imagem da morte, cedia ao clero uma fácil vitória não é crível que seu filho, no vigor da idade, condescendesse de boa mente com as pretensões exageradas daquela classe e que, tomando nas mãos as rédeas do governo, procedesse com sinceridade aceitando indiscriminadamente como legítimos os factos extorquidos à consciência timorata de um moribundo.

Todavia, apenas começou a reinar, Afonso II, que, conforme depois diremos, tinha a peito um negócio não menos importante para ele do que averiguar os agravos mútuos com os eclesiásticos, aproveitando, segundo parece, a concorrência em Coimbra dos prelados seculares e regulares, dos ricos-homens e de muitos outros fidalgos, convocou uma cúria solene (cortes), onde, além de outras providências tendentes a ordenar a administração da justiça, providências que teremos de mencionar oportunamente, se promulgou como lei do reino aquilo que Sancho I concedera ao clero como um privilégio e ainda mais. O direito eclesiástico, reduzido já a um corpo desde o meado do século antecedente, mandou-se considerar como inviolável, declarando-se nula qualquer legislação contrária à igreja. Impôs-se aos governadores de distrito (principes terrae) e aos juízes e oficiais públicos a obrigação de ampararem as paróquias e mosteiros contra os seculares. Estabeleceu-se a forma da nomeação dos párocos nas igrejas onde o padroado fosse em todo ou em parte do rei, devendo ser electivos naquelas em que houvesse colegiadas. Ficou, além disso, o clero geralmente isento do tributo chamado colheita e das fintas municipais nos concelhos que traziam arrendados por soma certa os direitos reais. Exceptuaram-se também todos os indivíduos pertencentes à ordem clerical das anúduvas ou contribuições em trabalho e de darem pousada ao rei ou aos seus delegados. Enfim, o costume de obrigarem as viúvas a casar mau grado seu, o que constituía uma das acusações dirigidas contra Sancho I pelo bispo de Coimbra, foi virtualmente abolido, proibindo o rei a si próprio e aos sucessores o constrangerem pessoa alguma a contrair matrimónio com ofensa do livre alvedrio de ambos os contraentes.

Esta extrema condescendência de Afonso II para com os eclesiásticos mal poderia ser sincera, porque equivalia à condenação de factos em que ele tivera maior ou menor parte, e era, afora isso, contrária aos interesses da coroa. A prova de que, cedendo às circunstâncias, não fazia senão adiar a luta, é que o chanceler de seu pai, o velho Julião, o qual, evidentemente fora a inteligência que dirigira o duro braço de Sancho, longe de perder o valimento do novo monarca, recebia deste elogios e recompensas pelos serviços que fizera a seu pai e avô e que lhe fazia a ele próprio. […]

O negócio que parece ter obrigado Afonso II a dar ao clero demonstrações de uma benevolência com que este não devia contar era assaz grave para o príncipe procurar antes tranquilizar esta poderosa classe e atraí-la ao seu partido ou, pelo menos, torná-la indiferente nas contendas que iam suscitar-se. O procedimento de D. Teresa para com Afonso Henriques durante a sua menoridade e o deste para com D. Teresa apenas pôde disputar-lhe o poder bastariam para nos provar, quando os exemplos de todos os países e tempos não sobejassem, que os laços de família são mui frágil barreira contra a cobiça, a ambição ou o ciúme do poder. Em Afonso II verificava-se ainda uma vez esta observação. Admitira ele de má vontade os amplos legados que Sancho I deixara aos outros filhos, não só aos legítimos, mas ainda aos bastardos. A existência desta repugnância transpira dos juramentos que lhe haviam sido exigidos para que respeitasse a derradeira vontade paterna — da exclusão do próprio príncipe do número dos testamenteiros — da solene promessa feita por estes, jurando que aceitariam a qualificação de aleivosos e traidores, se não desempenhassem à risca o dever que lhes era imposto — e, finalmente, de todas as outras cautelas que se tomaram para remover quaisquer dificuldades que só o sucessor da coroa podia suscitar. As veementes suspeitas que tais circunstâncias geram são confirmadas pelos factos que ocorreram no mesmo ano em que Sancho faleceu. Tinha este deixado o senhorio das vilas de Montemor e de Esgueira a sua filha D. Teresa, a divorciada rainha de Leão, e o de Alenquer a D. Sancha. Montemor e Alenquer eram povoações importantes, talvez as principais desde o Mondego até o Tejo, depois de Coimbra, Santarém e Lisboa. As duas infantas, que conheciam as ideias do irmão e que se temiam dele, suplicaram a Inocêncio III lhes confirmasse em especial o domínio daqueles lugares, confirmação que, aliás, virtualmente se continha na do testamento do rei falecido. D. Mafalda, a quem coubera o mosteiro de Arouca e o de Bouças e que já possuía, segundo parece, o de Tuias na diocese do Porto, impetrou igualmente da cúria romana um título que a protegesse contra as tentativas de Afonso. Aos prelados de Compostela, Guarda e Lisboa foi incumbida a execução da bula relativa a Mafalda, e ao primeiro, junto com os de Zamora e Astorga, a que dizia respeito à mais importante herança das outras duas princesas. Todavia, a repugnância do moço monarca em obedecer cegamente às últimas disposições de seu pai logo se tornara visível: o que não parece fácil é dizer hoje até onde ele intentou iludi-las quanto aos irmãos. A opinião do mais grave dos nossos historiadores é que, pelo que respeita a Teresa e Sancha, as suas pretensões foram legítimas, e esta opinião é, até certo ponto, bem fundada. As circunstâncias, porém, que precederam as discórdias de Afonso com os infantes Pedro e Fernando, circunstâncias que poderiam culpar ou absolver o rei, ignoram-se: somente sabemos que apenas Sancho faleceu os dois príncipes saíram de Portugal. Gonçalo Mendes de Sousa, o chefe da mais poderosa família de Portugal e que quase sem interrupção exercera desde a morte do conde D. Mendo seu pai o cargo principal do estado, o de mordomo-mor, não só foi substituído pelo alferes-mor Martim Fernandes, mas também abandonou a corte, talvez para fora do reino; ao menos, é certo que por esse tempo vários fidalgos foram expulsos de Portugal. As alterações que, além desta, nos oferecem os documentos nos nomes dos ricos-homens que seguiam a corte, indicam-nos que a nobreza não ficou indiferente às contendas da família real; e até Pedro Afonso, o bastardo de Afonso I e o amigo constante do monarca falecido, parece haver abandonado o sobrinho. Se não nos esquecermos de que ele e Gonçalo Mendes eram os principais testamenteiros de Sancho e de que os legados dos infantes consistiam somente em valores pecuniários, é lícito supor que Afonso II, não tendo para alegar contra estes os motivos que alegou contra as irmãs, recusasse com pretextos menos plausíveis entregar-lhes as somas que lhes pertenciam. […]

Invadidas as províncias setentrionais e ateadas as discórdias civis no coração do reino, Afonso II, privado das forças que combatiam no Andaluz, achava-se numa situação assaz dificultosa e pagava bem caro a falta de piedade fraterna e a quebra do juramento que fizera a seu pai. As memórias daquele tempo não nos habilitam para expor circunstanciadamente e com absoluta certeza o sistema de defesa adoptado pelo rei de Portugal. Delas apenas se vê que marchou para Além-Douro, provavelmente logo que soube da aproximação dos leoneses, ou deixando algumas tropas que se opusessem a qualquer tentativa das guarnições de Montemor e de Alenquer ou enviando-as todas a repelir a invasão. Pouco hábil, porventura, na arte da guerra e inferior em valor e em forças, Afonso perdeu por si ou, o que é mais provável, por seus generais uma batalha em Valdevez, naqueles mesmos sítios em que seu avô alcançara do imperador Afonso VII as brilhantes vantagens que o habilitaram para tomar o título real. Vitorioso no alto Minho, tendo por aliado os próprios membros da família do seu adversário e uma parte da fidalguia portuguesa, que, sacrificando o amor de pátria aos ódios domésticos, proclamava no sul do reino o domínio do príncipe estrangeiro, Afonso IX, o confederado oculto dos sarracenos, o velho e entranhável inimigo de Sancho I e de seu filho, sentia acaso dilatar-se-lhe o coração com a esperança de reduzir à última ruína esta pequena monarquia do ocidente, tão incómoda vizinha da sua. Supondo que Afonso VIII fosse desbaratado na luta gigante que travara com Anasir, nada havia que pudesse embargar os progressos das armas leonesas em Portugal. Aniquiladas ou dispersas as tropas enviadas por Afonso lI ao sogro e reduzido este a defender os próprios estados contra o amir-al-mumenin, era impossível que o rei português pudesse resistir por muito tempo à revolta que o ameaçava no coração do reino, ao exército vencedor em Valdevez que o apertava pelo norte e às tentativas feitas nas fronteiras da Beira Baixa, por onde, segundo parece, os cavaleiros vilões e a peonagem do concelho leonês de Galisteu invadiam o território de Sortelha e travavam com os habitantes deste distrito sanguinolentos combates.

A batalha, porém, das Navas ganha pelos exércitos reunidos de Castela, Aragão, Navarra e Portugal não só salvava a Espanha cristã de uma das mais temerosas invasões de que foi ameaçada e abria o caminho para a rápida e não interrompida queda do islamismo espanhol, mas também influía de um modo decisivo na crítica situação de Afonso II e arrancava-o da borda de um abismo. […] Grato ao genro, que lealmente o ajudara na hora do perigo, uma das condições que Afonso VIII impôs ao rei leonês foi a restituição dos castelos portugueses que tomara e por consequência a cessação das hostilidades contra Afonso II.

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