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O plenário do Congresso dos Deputados, a câmara baixa das Cortes, órgão constitucional que representa o povo espanhol, aprovou ontem uma moção de apoio ao modelo educativo do catalão, com menção expressa à imersão linguística e ao uso do catalão como língua veicular. Esta aprovação cruza-se com ao auto do Supremo Tribunal que exige que Generalitat mude o seu modelo educativo. O texto foi apoiado por 192 votos a favor, 148 contra e uma abstenção.
Esta notícia, recordou-me um episódio: passeava com o nosso Fernando Correia da Silva pelo extenso areal da Praia de Porto Santo. Falávamos da atávica arrogância castelhana e ele contou-me como, numa viagem que fez com seu pai a Madrid, talvez no final dos anos 40, pediram uma informação a uma vendedeira. Aa mulher, protestando por lhe estarem a falar em português, exclamou: “Hombre, hableme usted en cristiano!”. Em castelhano, queria ela dizer. E percebendo finalmente que lhe perguntavam o nome da praça onde se encontravam, respondeu: “Pues están ustedes en la Puerta del Sol. En el centro del mundo!”. Por essa altura, uma marchinha brasileira dizia: Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha/Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha…A propaganda franquista conseguira fazer passar a ideia de uma España, una grande y libre!
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Passados 36 anos sobre a queda do franquismo, a postura dos espanholistas perante o facto das nacionalidades existentes dentro do espaço geográfico comum atinge ainda níveis que causam espanto. Para se perceber quão difícil vai ser a galegos, bascos e catalães obter uma autonomia plena no seio do estado espanhol. é preciso compreender a mentalidade centralista e nacionalista espanhola, A tese espanholista é blindada, é um projecto acabado fechado e fundamenta-se no princípio de que a nacionalidade não é discutível – sim, admitem os defensores dessa tese, há diferentes regiões em Espanha, com expressões dialectais diferentes, com tradições próprias – mas isso não é o que acontece em qualquer país? Não percebem que o que está amalgamado naquilo a que chamam Espanha, são nações e não regiões. Nações com história, cultura e idioma próprios. Que nesse amálgama, Castela é apenas uma dessas nações e que não tem qualquer direito (a não ser o que força sustenta) de aculturar as demais nações, e, falando claro de as extinguir.
Um oriundo de uma das regiões castelhanas não entende (não entende mesmo), se vai estudar ou trabalhar para Barcelona, por que motivo lhe exigem que fale a língua catalã. Se for para Oxford, aceita que tem de falar inglês ou se se matricular na Sorbonne que o francês é obrigatório. Agora, ter de falar galego em Santiago ou catalão em Barcelona, em “território espanhol” isso não lhe cabe na cabeça. Que um catalão, um basco e um galego tenham de falar castelhano para frequentar a Complutense é óbvio. Pois que língua deviam eles falar? Que entre eles usem os seus dialectos, tolera-se. Que os “polacos” lhes exijam que em Barcelona se fale “polaco”?
No faltava más.
