Queremos a partir de hoje mostrar como é que no Far West da alta finança não se travam duelos com revólveres e balas normais e muito menos com armas carregadas com pólvora seca, como o faz a Europa relativamente aos mercados financeiros. Não – nestes mercados combate-se com armas pesadas, com morteiros, bazucas, uns contra os outros, gigantes contra gigantes, amigos de ontem, adversários de amanhã, gigantes privados contra Estados soberanos. Sem margem para dúvidas, é necessário uma enorme força colectiva para que os próprios Estados Nacionais se lhes possam verdadeiramente opor e combater este senhores que se comportam como donos do mundo, do dinheiro e do trabalho dos outros.
No caso da União Europeia, essa vontade, se existe, exerce-se no sentido inverso, no da completa submissão aos desígnios que os senhores dos mercados estabelecem. Demissão pura pela parte dos nossos governantes e oposição nula por parte das populações. É o espectáculo desta Europa que em ruínas já quase que parece viver numa agonia semelhante à que conduziu à queda do bloco de Leste, pese embora a diferença de sistemas. Sendo isto verdade pelo lado europeu, começa também a sê-lo pelo lado americano. É certo que alguns segundos lugares da Administração têm estado a fazer e muito bem o seu trabalho contra a alta finança, mas sobre estes não nos vamos aqui debruçar. É também certo que Obama tentou inflectir a política contra Wall Street, endurecendo-a, e a favor da Main Street por volta de 2009 quando reforçou os poderes do vice presidente Joe Biden, mas depois quem parece estar agora por estes lados a governar é o actual secretário de Estado do tesouro, Tim Geithner, que com aquela carinha de sacristão mais parece o Robert Rubin, dos tempos modernos, de quem se diz que é o seu protegido, talvez sem os seus milhões, mas estes também podem aparecer depois.
E com esta ascensão, é Christina Romer, Presidente do Conselho dos Conselheiros de Obama que se vai embora, é Peter Orszag, responsável pelo Orçamento que segue a mesma via, Lawrence Summers, Principal conselheiro económico também é substituído por Gene Sperling e a este Goldman Sachs conhece-o bem, Rahm Emanuel, chefe de gabinete de Obama, é substituído por William Daley e a este é J. P. Morgan Chase que o conhece bem e ainda Jeffrey Immelt, enorme especialista na fuga aos impostos, homem da General Electric, através do poderoso lóbi do patronato, da Câmara do Comércio, ascende ao lugar de presidente do Conselho dos Conselheiros Económicos. Banca e Indústria em conjunto com Tim Geithner cercam assim o Presidente e este de novo se afastou da Main Street. No espaço de três meses quase toda a equipa económica de Obama foi substituída – até o velho se foi embora Paul Volcker, um homem que não temia ninguém , que não devia nada a ninguém e que foi peça central no combate a Wall Street. Todos se foram embora, com excepção, claro está, de Tim Geithner.
Vem isto a propósito do facto de, todos os meses, na terceira quarta-feira de cada mês se organizar um jantar no centro de Manhattan com ilustres figuras. À volta da mesa encontram-se os dirigentes de Goldman Sachs, J.P. Morgan Chase, Morgan Stanley, Bank of America, Citi Group, Barclays, UBS, Crédit Suisse e Deustche Bank. Um elemento comum nestas pessoas: proteger os seus interesses no mercado dos produtos derivados e isto quando Tim Geithner isenta os contratos de derivados sobre câmbios, assim como os swaps de divisas da regulamentação elaborada por Volcker, agora chamada Dodd-Frank, nomes dos senadores que a apresentaram no Congresso!
Desse jantar e destes mercados falará o texto que vos vamos apresentar. Estamos num blogue generalista onde a função principal será a da informação. Porém, não sejamos simplistas: a informação só pode ser recebida se para tal houver formação adequada que a permita compreender. Neste caso, não acreditamos que esta formação de base aqui exista. Por isso, apresentamos um texto de introdução tão longo como aquele que se quer apresentar, o texto de Louise Story, do New York Times, com o título A Secretive Banking Elite Rules Trading in Derivatives, no qual procuramos fornecer os conhecimentos básicos sobre bolsa, câmara de compensação e produtos derivados para se poder compreender a luta de gigantes que passa pela historia do New York Times e dessa história é a humanidade que paga as consequências. Por esse motivo, assume extraordinária importância o movimento Occupy Wall Street, talvez um dos movimentos de apoio de que Obama precisaria, pensamos.
Espero que com o meu texto sobre produtos derivados o objectivo pretendido seja pelo menos parcialmente conseguido, pois meter o Rossio na Rua da Betesga foi coisa que ninguém até agora conseguiu. Como prémio a todos os argonautas que tenham estado por Cannes a protestar contra o G20 que se transformou em G00 daqui lhes envio uma nota virtual de 500 euros que poderão multiplicar até ao infinito. Mas são de quinhentos euros! Apanhem o avião, vão para Nova Iorque, vão depois para Manhattan, assistam ao jantar, ouçam a conversa e façam depois um relato que publicarão em A viagem dos argonautas.
E um pequeno pormenor: não se viciem a jogar sobre índices porque este casino é bem pior de que todos os outros que se possam conhecer.
E boa leitura de tudo isto.
Júlio Marques Mota
Capitulo I – Produtos Derivados
Capitulo II – Uma secreta elite bancária controla a actividade sobre derivados
- Produtos Derivados
O mercado dos produtos derivados
- I. O conceito de produtos derivados
É muito difícil dar uma definição geral dos produtos derivados e isto por duas razões: por um lado, antes da crise, criavam-se diariamente novos produtos cada vez mais complexos, cada vez mais difíceis de entender e por outro lado, alguns destes produtos são tão complexos que certos especialistas confessam que estes só são plenamente compreendidos por aqueles que os criaram. No entanto foram autorizados, foram comercializados. As características comuns aos produtos derivados são as seguintes:
1.Trata-se de contratos de natureza financeira que se admitidos em bolsa podem ser comprados e vendidos , em princípio, em qualquer momento tempo.
2.- o seu valor depende (é derivado) do valor do subjacente, o activo que lhe serve de suporte ou que lhe serve de referência.
3. a sua liquidação intervém numa data futura, standardizada se for negociado em bolsa e normalmente por compensação, ou cash settlement, (a diferença entre o valor do contrato e a cotação do dia).
Um exemplo simples: Admitamos que A compra um título do Tesouro português de maturidade a 10 anos e de cupão a 3por cento, que vence daqui a um ano, a uma contraparte, chamemos-lhe B. Admitamos que o título é negociado a 1000 euros. O agente A aceita adquirir o título daqui a um ano por este valor e B aceita vendê-lo por este valor nessa data, firmando-se agora o contrato relativo a essa operação . Na data de entrega o título vale 1100 euros e A adquire então um título por 1000 que está a ser cotado 1100 euros. Antes dessa data pode ser negociado e o seu valor dependera do ganho previsível , ou seja da variação do valor do activo real, o subjacente. Repare-se que B fez uma venda a descoberto, pois não tem o título. No fim, limita-se então a pagar as unidades de diferença entre o valor do subjacente nesse dia e o valor do contrato, ou seja 100 unidades de diferença, e neste caso o título ninguém o vê, ninguém o tem, ninguém o quer. A liquidação foi em cash, não foi com a entrega do título, foi apenas a diferença de valores. Duas contrapartes, um especulou à baixa e vendeu, um outro especulou à alta e comprou, o primeiro tomou uma posição curta, a short selling, o outro uma posição longa.
(Continua)
