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8 – BLOGOCONTOS – I’ve got dreams to remember — Os meus sonhos de Natal – A senhora Margarida – por XK13

São sonhos velhos, os que tenho, com muitas saudades misturadas. Sonhos de muitos Natais bem passados, no meio de uma família enorme (sim, é verdade, pertenço aos felizardos que tiveram uma infância e adolescência felizes, e com uma família grande), com um avô paterno bonacheirão e amigo de comer bem, tias e tios e primos que enquanto o dinheiro não abundou se mostraram sempre muito boas pessoas, e com uma felicidade que se repetia todos os anos, a de dormirmos (fomos durante muitos anos dezanove) de 24 para 25 em casa dos avós, todos juntos, numa alegria imensa.

A consoada, feita com toda a gente à mesma mesa, ou quase toda porque os mais pequenos ficavam numa mesa à parte por falta de espaço, era barulhenta, com todos a falar ao mesmo tempo, e muito alegre. Não havia espaço para o silêncio nem para uma qualquer menor alegria. Ninguém abandonava a mesa sem autorização do meu avô, mas também ninguém o desejava, e o jantar durava muito tempo, sabendo todos nós de antemão, que no dia seguinte o almoço seria mais uma vez uma enorme festa.

Perto da meia-noite, os mais velhos iam assistir à Missa do Galo, enquanto os mais novos se recolhiam nas camas, com os olhos esbugalhados por causa insónia provocada pela ânsia da chegada da manhã do dia seguinte e das prendas que cada um iria ter nessa altura.

As prendas, eram uma para cada um, e que maravilhosa que essa prenda nos parecia. O primeiro a acordar ia ver se o Menino Jesus já tinha chegado e colocado os presentes nos sapatos que estavam em cima do fogão de lenha, e vinha excitadamente avisar os outros. Cada um, então, se entretinha a ver o que lhe tinha calhado e depois era a festa de mostrar aos outros e começar a brincar.

Mas as minhas saudades e os meus sonhos sobre os bons tempos, não se limitam à época de Natal. Lá em casa, havia duas pessoas mais, que eram como que da família; a srª Margarida e o sr Aurélio. Eram casados um com o outro e desde tempos imemoriais, trabalhavam para os meus avós. O sr Aurélio, homem bom mas muito reservado e pouco dado a manifestações, tratava de tudo o que dissesse respeito aos animais e ao campo e obedecia cegamente à mulher, e a srª Margarida, dava ordens sobre ordens ao marido e tratava das lides da casa e da cozinha. Nos últimos anos, já doente, era quase só da cozinha que tratava (e que bem que cozinhava), pois que tinha uma ajudante para os quartos. Eram estes dois, para mim como uns segundos avós, principalmente ela, por quem eu e todos os meus primos (éramos nove), tínhamos uma adoração enorme, e que nos era correspondida em triplicado. Era a nossa conselheira, a nossa ouvinte, aquela a quem, quando era preciso dizer alguma coisa aos nossos pais ou avós e não havia muita coragem, nós confiávamos a diligência de o fazer e tínhamos a certeza que o seria bem feito. Era a alma daquela casa! Depois da sua morte, nunca mais nada foi o mesmo.

A cozinha, razoavelmente grande, era o local por excelência do casarão, e a srª Margarida era a dona única daquele espaço. Lá nos reuníamos, fofocávamos, bilhardávamos, desfazíamos zangas novas ou antigas, contávamos anedotas, ouvíamos histórias de tempos idos, recebíamos ofertas de batatas ou couves tronchudas ou qualquer outro mimo, roubávamos batatas acabadas de fritar, e comíamos uns ovos estrelados (um dos meus mimos preferidos e que ela adorava oferecer) com um sabor tal, que por muito que tenha procurado, nunca mais na minha vida voltei a encontrar.

Nestes dias que antecedem a véspera de Natal, noite de consoada, voltei a lembrar-me desses tempos (a srª Margarida faleceu no início de 1991 e o sr Aurélio já há anos tinha morrido), da enorme falta que essa mulher me faz, e senti uma tristeza imensa, tanto pelas saudades desses tempos fabulosos, como pela impossibilidade dos meus filhos e sobrinhos crescerem com tanta qualidade, quanto a que nós tivemos.

 

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