UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (16)

CHRISTMAS CAROLS

Nesta época do ano, fascinante para muitos de nós, são muitas as recordações conversadas à volta da mesa, e imensos os sonhos, imaginando ser possível voltar a viver os momentos que nos fizeram felizes.

.DSC04623-960x

A preparação da Festa da Noite de Natal era algo que nos preenchia os dias e nos ocupava os pensamentos. A procura de prendas nas lojas da cidade, sempre muito poucas mas escolhidas criteriosamente, que nos fazia ir e vir nas ruas ao frio e à chuva, era um ritual mágico que só acabava na véspera do acontecimento, às vezes muito em cima da hora de já estar em casa. Hoje em dia, com o consumismo instalado, já quase tudo são sonhos.

São sonhos velhos, os que tenho, com muitas saudades misturadas, de muitos Natais bem passados, com uma família enorme (sim, é verdade, pertenço aos felizardos que tiveram uma infância e adolescência felizes, e com uma família grande), com um avô paterno bonacheirão e amigo de comer bem, tias e tios e primos que enquanto o dinheiro não abundou, se mostraram sempre muito boas pessoas, e a felicidade de todos os anos, dormirmos (fomos durante muitos anos dezanove) de 24 para 25 em casa dos avós, todos juntos, numa alegria imensa.

Foto da internet

Foto da internet

A consoada, com toda a gente à mesma mesa, ou quase toda porque os mais pequenos ficavam numa mesa à parte por falta de espaço, era barulhenta, com todos a falarem ao mesmo tempo, e muito alegre. Na mesa, pontificava o bacalhau cozido, as batatas, as cebolas e as cenouras, o polvo cozido e, sem poder falhar, as deliciosas tronchudas. Tudo acompanhado pelo vinho tinto para os mais velhos e a água para os mais novos. Não havia espaço para o silêncio nem para a menos alegria. Ninguém abandonava a mesa sem autorização do meu avô, mas também ninguém queria, e o jantar durava muito tempo, sabendo todos nós de antemão, que no dia seguinte o almoço seria mais uma vez uma enorme festa, onde o capão (em alguns anos era o peru), os miúdos, a roupa velha, o arroz de forno e os mais variados queijos e doces, tudo bem regado com vinho e espumante (mas sempre água para os mais pequenos), iriam fazer as delícias de todos os presentes.

Perto da meia-noite, os mais velhos iam assistir à Missa do Galo, enquanto os mais novos estavam já na cama, de olhos esbugalhados pela insónia provocada pala ânsia da chegada da manhã do dia seguinte e das prendas que cada um iria ter nessa altura.
Prendas, era uma para cada um, e que maravilhosa que essa prenda era. O primeiro a acordar ia ver se o Menino Jesus já tinha chegado e colocado as prendas nos sapatos que estavam em cima do fogão de lenha, e vinha avisar os outros. Cada um se entretinha a ver o que lhe tinha calhado e depois era a festa de mostrar aos outros e começar a brincar.
E estas lembranças vêm-me à cabeça, e as lembranças são como as cerejas, por causa do que se passou há dias.

Estava em Trafalgar Square, pelas 5 da tarde, já noite cerrada, depois de ter visitado a National Gallery of London, e de me ter deleitado com quadros magníficos de pintores não menos aclamados mundialmente, como Rembrandt, Monet, Picasso, Renoir, Van Gogh, só para referir os que sempre mais me impressionaram, e uma infinidade de outros.

De mão dada com minha mulher, olhava a estátua de Lord Nelson, quando reparei que aos pés da coluna, e nas costas do Vice-Almirante estava um presépio rodeado a cerca de alguns metros por uma barreira metálica e com algumas pessoas encostadas.

Curiosos aproximamo-nos!

Ao longe ouvia-se, vindo do meu lado esquerdo, música, e entrevejo uma espécie de pequeno cortejo, com uma fanfarra a meio. À frente um padre e alguns acólitos. Dirigia-se a nós, com o “ministro” a comandar.

Olho à minha volta, pessoas de todas as idades, desde crianças a velhos muito velhos, esperavam calmamente. Um dos acólitos distribuiu uns panfletos, e quase todas as pessoas aceitaram.

Ainda não imaginava o que se estava a passar. O frio era de rachar, menos de zero graus seguramente, e toda a gente com ar de satisfação.

Em tudo parecido com algumas coisas que já antevira no meu país, organizado pelos padres locais lá pelas aldeias. Estava com dúvidas sobre se ia haver uma míni missa campal ou qualquer coisa do género.

Só quando vi algumas pessoas, poucas, a persignarem-se, entendi que a religião era a Anglicana. Mas como se parecia com a minha, Católica Romana. Diziam as mesmas coisas e de maneira muito semelhante, embora com menos carga de seriedade (mais tarde assistimos na catedral de St Paul´s a uma lição de catequese sobre o nascimento de Cristo, e com a excepção de uma certa liberdade de linguagem, nada vimos de diferente do que aprendemos quando crianças).

Depois de uma curta prelecção, deram início à cerimónia, que era nem mais nem menos do que cantar os Christmas Carols.

Todas as várias centenas de pessoas presentes cantavam (aos poucos o espaço encheu), num coro de vozes muito afinadas. O folheto que tinham distribuído no início tinha as letras para os menos avisados como eu.

O espírito natalício tinha invadido, e de que maneira, toda a gente.

Nunca na minha vida me tinha apetecido tanto cantar. Senti-me comovido, muito comovido!

A comunhão entre os presentes era total.

Não senti nenhuma diferença, antes pelo contrário, por estar entre cristãos diferentes de mim. Éramos todos iguais. Todos com o mesmo Cristo no fundo dos nossos corações, e o desejo de paz no mundo muito enraizado.

Acabado o canto, senti-me leve, com um quentinho na alma, em paz com o mundo e muito, mas muito mais feliz.

Abençoada época natalícia que tudo perdoa e nos faz voltar a sonhar, como crianças.

.

.

 E NESTES DIAS,

AS COMPRAS SÃO NO COMÉRCIO TRADICIONAL

.

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

One comment

  1. Albertia Eudora Silva

    Só hoje tive ocasião de ler mais uma das suas belas crónicas.Gostei da forma como comentou a sua partilha numa celebração não católica. Seja qual for a religião de cada crente partilhamos todos a mesma fé em Deus embora por vezes de maneira diferente…

    Festas Felizes!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s