SONHO COM UMA NAÇÃO QUE NÃO EXISTE – I, por JOSÉ NEVES

 

Sonho com uma nação que não existe, vivendo num território real, ainda que pequeno e pobre.

Acordo sobressaltado com o alarido dos que, em nome dos direitos individuais que reclamam, olvidam as necessidades básicas da maioria, comprometidas pelo clamor que recusa compromissos sabendo, “de fonte fidedigna”, que a vida é monocolor e ainda por cima da que orgulhosamente ostentam na lapela.

Assusta-me que encontre gente tão sabedora, tão perita, em todos os géneros do arco-íris, em todos os escalões etários, em todos os estratos sociais, em todas as artes e ofícios.

Envergonha-me reconhecer que a comunicação social, formal ou informal, interessada na notícia-espetáculo, promova desinformação, privilegiando o “parecer” sobre o “ser”.

Interrogações a propósito do que se ouve dizer…

Mas afinal o que é um Clínico Geral?

Após candidatura, para a qual é exigida uma das médias mais altas do Ensino Universitário, frequenta-se um curso exigente de 6 anos, obtendo-se a Licenciatura em Medicina; entretanto, tal licenciatura só confere o direito de exercer Clínica Geral após mais 2 anos de Internato Geral, sob tutela de médicos graduados, em ambiente hospitalar.

Curiosamente trata-se de uma aptidão profissional adquirida em escola pública estatal (só recentemente foi autorizada escola médica privada), que não tem qualquer perspectiva de emprego público, já que nos quadros de pessoal do estado só são admitidos especialistas (de Saúde Pública -vulgo, delegados de saúde-, de Cuidados de Saúde Primários -vulgo Médicos de Família-, ou de Cuidados de Saúde Diferenciados -vulgo especialistas hospitalares-).

Mas que grande desperdício, não vos parece?

A mim parece! Aliás julgo mesmo ser uma atitude de País que se julga “Novo-Rico”, passando a só vestir “roupa de marca”, quando não possui meios para se alimentar devidamente.

Quanto à dita “roupa de marca”, expressão que me esforcei por utilizar, trata-se tão somente de conflito de interesses. Senão vejamos:

Quando se iniciou o SNS, com a nova especialidade de “Medicina Geral e Familiar” (mais 4 anos de formação específica), rapidamente se sentiu alguma “agastura” por parte das especialidades hospitalares que pareciam olhá-la como “especialidade menor”.

Olhar também partilhado pela administração pública, o que teve tradução inequívoca com legislação que, por exemplo, impedia os médicos de família de requisitarem tomografias axiais computadorizadas (TAC), quando tal era permitido a qualquer especialidade hospitalar.

E, no entanto, como deve ser classificado o exercício, efectuado por Especialistas Hospitalares, em consultórios privados? Clínica Geral com encaminhamento para especialidade hospitalar, se for caso disso…

Agora, muitos anos depois, assisto a um revivalismo dessa “agastura” primordial, desta feita em reacção à hipotética admissão de Clínicos Gerais nos quadros dos Centros de Saúde para exercerem, consoante a sua habilitação profissional, Clínica Geral.

Eis um “País Novo-Rico” que grita: Especialistas para todos já! Temos o direito de exigir o “Especialista” que queremos! Tal como antes já gritava, Temos o direito de efectuar o TAC que queremos! São modas, Senhor, são modas…

Sonho com uma nação que não existe, vivendo num território real, ainda que pequeno e pobre.

Leia o original em:

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