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Jardineiros dos alemães, apanhadores de azeitonas e de morangos para Berlim, o destino dos países do Sul da Europa traçado pelo neoliberalismo e com o consentimento da União Europeia- ainda a propósito do recente texto de Niall Ferguson .. Por Júli

A reunificação alemã custou caro a toda a gente com a subida das taxas de juro na moeda de referência, o marco da Alemanha Ocidental, dada a subida das taxas de juro que provocou em todas as moedas europeias de então. Disso a senhora Merkel não se lembra. Estava vir ainda do lado de lá, da zona leste, para o Ocidente de que agora é a sua dirigente. Aos alemães custou também um imposto suplementar de 5,5% durante vários anos, a sua contribuição directa para a reunificação das duas Alemanhas. Parece que foi  há muito tempo, mas em termos da História foi como se tenha acontecido ontem.


A via para a moeda única era do desagrado de grande parte da população alemã que assim perdia a sua segunda bandeira, o símbolo do Deutsche Mark, o símbolo da sua suposta superioridade, da sua clara prosperidade, também..É nessa altura que as empresas a uma maior escala começaram a ver com bons olhos os Paraísos Fiscais e olhavam  para países como a Irlanda, chamados países do mínimo fiscal, que fizeram de dumping fiscal, uma vantagem concorrencial, uma vantagem comparada, dirão os meus antigos alunos de Economia Internacional, à margem claro está de tudo o que Ricardo escreveu sobre o assunto para se falar em vantagem comparada. Os grandes economistas clássicos, tinham muito mais  seriedade sobre tudo o que escreviam, sobre tudo o que pensavam, que estes neoliberais de meia-tijela, que fazem da sua ignorância e da sua falta de seriedade intelectual o seu melhor diploma. A Roménia seguiu o mesmo caminho da Irlanda e mais países também, nesta Europa à procura de receitas nos bolsos de quem as não tem! Mas de honestidade política não se podem as Instituições Europeias proclamar, mas reclamam-se lamentavelmente do poder que com o nosso voto e com a nossa cobardia colectiva lhes andamos a assegurar. 


Nessa altura banqueiros e financeiros alemães começaram a trabalhar cada vez mais com as praças anglo-saxónicas, em especial com a City. Ora com a livre circulação dos capitais, organizada no espaço europeu quase sempre sobre influência dos socialistas na Europa, também eles queriam ser modernos, todos estes movimentos de capitais com origem na Alemanha se tornaram de mais fácil movimentação, sobretudo para as grandes fortunas alemãs mas  não só.

 

Curiosamente foi a City que Cameron na cimeira de ontem defendeu com unhas e dentes e compreende-se que assim seja, tal o mau estado da economia inglesa a viver em grande parte dos resultados financeiros da City.

 

A Inglaterra, a velha potência industrial, depois de ter vendido tudo o que era símbolo da sua posição industrial no Mundo, com a exclusão.da bandeira que deverá ser produzida, quem sabe, na China, nada mais tem para defender que não seja a sua plataforma mundial de paraíso fiscal, a City de Londres. E sem querer fazer publicidade, sobre este tema aconselho a lerem CityBoys agora em versão portuguesa e apercebem-se que se trata de um mundo que dá vómitos e mais ainda quando ao lê-lo pensamos que é por ali que se fazem e desfazem os nossos destinos, singulares e colectivos.  Essa defesa da City e ao limite foi o que se viu ontem e por isso a reforma da City ficará para os anos de 2019, mas entretanto Cameron impõe planos de austeridade de que ninguém já se lembra de ter sentido na velha Albion! E depois, com a política instalada de alargamento das desigualdades na repartição do rendimento, característica do neoliberalismo, característica das políticas desenhadas em Bruxelas deesde as duas últimas décadas, as famílias alemãs de rendimentos médios e médios-altos assim como  os quadros começavam a pensar nos seus dias dourados, os seus dias de reforma, os seus dias de velhice também  e nada melhor que um belo país cheio de sol, para contrariar o reumático da humidade de  países como a Alemanha. Assiste-se entre 1995 e 2008 a uma saída maciça de capitais, de poupança das famílias, de capitais. Calcula-se em 76% da poupança das famílias alemãs que. neste período saiu  para o estrangeiro contra 24% apenas que .foi aplicada no seu país. Há por aí uma dezena de anos que corria por Palma de Maiorca, a ideia de que esta ilha podia ser  considerada  o 17º Land alemão, uma anedota que Ferguson se calhar até conhece, tantos eram os alemães que aí viviam. Aliás, Hans-Werner Sinn, presidente.do Instituto IFO, escreveu: “o boom da economia nacional, as saídas de capitais alemães, provocaram em países como a Grécia, a Espanha, a Irlanda, um rápido aumento da actividade na construção, Os trabalhadores na construção encontravam emprego e gastavam os seus salários em bens de consumo. Os proprietários dos bens imobiliários andavam bem satisfeitos com o forte aumento dos seus activos o que os incitava a outros investimentos financiados pelo crédito. “ Crédito tanto mais fácil, quanto a criação do euro fez desaparecer a diferença entre as taxas de juro, ou seja, verificou-se o contrário do que se está a verificar hoje com.os títulos da dívida soberana. Ora o virtuoso povo alemão, tão corrupto como qualquer outro,  com a carga fiscal a aumentar devido aos custos com  a reunificação alemã fugia tanto quanto podia ao fisco e, como nos tempos da minha mãe, guardava o dinheiro debaixo do colchão e para evitar muito volume  fazia-o em notas de mil marcos. Ora com a passagem ao euro os nossos pequenos e médios burgueses alemães assustaram-se para trocar as notas de mil markos ou marcos, já nem sei bem, para não poderem ser acusados de fuga fiscal..É aqui que entram os agentes mediterrânicos do “Club Med” ou dos países apanhadores de azeitonas  e de morangos. E aqui  que entra em jogo a captação destes aforros, destes desvios fiscais. Assim, a partir de 1997 era vê-los chegar de avião, os alemães claro,  com as suas malas cheias de marcos em notas de mil. Deu-se uma vaga de compras que puxou o índice de preços do imobiliário em Espanha para a alta..E o imobiliário, entre.1997 e 2006 desce de 2,4% na Alemanha e sobe de 173% em Espanha, um pouco a reflectir esta fuga de capitais alemães. Esta hemorragia, aliada ao custo da reunificação alemã, levou a um marasmo na  economia alemã e a uma baixa do valor dos bens imobiliários. As famílias alemãs optavam entre ter uma segunda habitação entre metros quadrados caros e em clima chuvoso e frio ou entre metros quadrados baratos em clima ensolarado. E assim escolhiam então a Espanha. Com essa vantagem adicional dada pelo sol de Espanha, pois este país sob a mão de Aznar e depois de  Zapatero quis-se  especializar  em serviços para alemães, sobretudo para os velhos alemães e a Espanha do Sul transformar-se-ia assim num imenso espaço de “lares” de luxo para idosos da classe média e superior da Alemanha. E possivelmente com muitos jardineiros!

 

Pelo lado da Espanha, esta adaptação à procura das famílias alemãs e o ataque que por outro lado lhe fazia a economia chinesa terão sido as chaves na desindustrialização espanhola e com  isso a alimentar a modificar e a desestruturar  o mercado de trabalho não há empregos que resistam. E assim 49 % dos jovens entre 16 e 24 anos neste país não encontram emprego, talvez com os alemães agora a pensar que estes desempregados jovens serão os seus jardineiros de amanhã. A sublinhar aqui que a resposta ao marasmo económico alemão dessa época  foi a política ultra-neoliberal seguida pelo SPD, partido social-democrata alemão liderado então por Schroeder, política mercantilista diremos equivalente à que faz a China hoje, que levou no caso alemão à destruição do Estado Providência que vinha sendo criado desde os tempos da Prússia, desde os tempos de Bismarck. É como resposta a este marasmo económico que surge na Alemanha o pacote das reformas neoliberais, a Agenda 2010, daí as famosas leis Hartz, daí a extrema flexibilidade no mercado de trabalho na Alemanha a fazer inveja a muitos neoliberais do Sul. E Schroeder por isso caíu. E Merkel sobe ao poder  sem programa sequer mas depois continuou a intensificar  a obra do seu antecessor. E os resultados estão bem à vista, uma política comercial agressiva para com os países seus parceiros, uma política de austeridade interna de fractura social bem sustentada  pelas reservas de mão-de-obra barata a Leste, uma  política da desinflacção competitiva que fazem da Alemanha a China da Europa.   Tal como no plano político inverso, na Inglaterra, foi Tony Blair, dito socialista, que calçou e bem as botas da neoliberal  Margaret Thatcher para tornar a Inglaterra como o país da Europa em que os   trabalhadores têm menos direitos. E agora é Cameron a seguir esse mesmo trajecto com a diferença que o faz com uma ferocidade sem paralelo que não seja a dos tempos  de Margaret Thatcher, o mesmo que na cimeira se assumiu como um alto funcionário dos banqueiros da City.  Os resultados são os que se vêem nesta Europa de muitos milhões de desempregados com os quais os governos não se parecem verdadeiramente preocupar e, assim, como resultado das medidas assumidas desta cimeira,  pelos  vistos, somos levados a acreditar  que  mais jardineiros, mais apanhadores de azeitonas, mas apanhadores de morangos para os alemães, tudo isto será necessário para alimentar esta triste situação que na Europa a Comissão Europeia  deixou instalar. 

 

Coimbra, 9 de Dezembro de 2011

 

Júlio Marques Mota

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