Em Março de 2003, os Estados Unidos, com o apoio da União Europeia, invadiram o Iraque, pois o ditador Saddam Hussein era uma afronta ao conceito de liberdade que parece orientar a política externa de Washington. Ou melhor, o conceito que os sucessivos presidentes, democratas ou republicanos, brancos ou pretos, afirmam orientar a sua política.
Saddam Hussein era um ditador? Era. Reprimia a oposição ao seu governo? Sim.
Para não irmos muito longe, ficando-nos aqui pelas nossas paragens, Salazar e Franco não eram ditadores? Eram. Reprimiam as oposições às suas ditaduras fascistas? Sim. Os norte-americanos vieram cá repor a democracia? É o vens!
Para os executivos de Washington, há, pois, ditadores maus e ditadores bons. Embora uns e outros reprimam, torturem, asfixiem quem se lhes opõe. No Iraque, com Saddam, as coisas funcionavam, talvez mal, mas funcionavam. A grande maioria do povo iraquiano (ao contrário do que acontecia aqui na Península) não parecia muito ansioso por usufruir dos benefícios da democracia. Agora, quase nove anos depois, mais de cem mil mortos iraquianos depois, quatro mil e quinhentos soldados americanos mortos depois, com o país em ruínas, a economia destruída, as tropas americanas saem do país. Missão cumprida.
O primeiro-ministro, o fantoche Nuri Al Maliki, vai tentando gerir uma situação de tensão permanente entre sunitas e xiitas e reprimindo os apoiantes do anterior regime. Na prisão de Abu Ghraib os presos continuam a ser torturados, o número de crianças famintas no país quase duplicou, segundo um relatório da Comissão dos Direitos Humanos da ONU.
Enfim, tudo benefícios da democracia e da generosidade americana.
