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Diário de Bordo de 31 de Dezembro de 2011

Neste dia é costume fazer um balanço do ano – faz-se rapidamente em quatro palavras – foi um ano mau. Um optimista dirá: foi um ano bom se o compararmos com o que se espera para 2012. Quem quiser usar a memória dirá – foi o pior ano desde 1974. Ou sendo mais explícito – foi o pior ano desde que vivemos em democracia. E alguém poderá perguntar – mas nós vivemos em democracia?

 

Há cinquenta anos terminava um annus horribilis para o governo do Estado Novo – o Santa Maria assaltado, o desencadear da Guerra Colonial e, nas últimas horas do ano, no início de 1962, o Quartel de Beja era atacado por forças oposicionistas ligadas, tal como os assaltantes do Santa Maria, ligados ao general Humberto Delgado, vencedor das eleições presidenciais de 1958, fraudulentamente vencidas pelo almirante Américo Tomás, o candidato salazarista.

 

Era um cenário dantesco em que um país em que nada acontecia (dizia-se), se via catapultado para as primeiras linhas dos jornais estrangeiros, para as reportagens dos grandes magazines internacionais. Os salazaristas rosnavam enraivecidos e os antifascistas viam nesta sucessão de acontecimentos, no visível princípio do fim da ditadura, uma luz de esperança acender-se.

 

Foi um período difícil, uma guerra que provocou luto em todas as famílias, emigração em massa, perturbação violenta nas universidades, greves, prisões em massa… a paz dos cemitérios que reinava no país até então, deu lugar a treze anos de agitação, de violência, sacrifícios, que cuklminaria no 25 de Abril de 1974.

 

Voltamos ao princípio e à pergunta – vivemos em democracia?

 

A nossa resposta é – Não!

 

Os poderes que manipulavam Salazar, Caetano e os seus bandos de criminosos, estão aí a puxar os cordéis que movem os títeres dos dois partidos que se alternam no poder. Salazar chamou à sua estrutura ditatorial, «democracia orgânica», ou seja, do seu conceito corporativo e fascista de organização social brotava uma sociedade «democrática», porque ele sabia o que o povo queria sem necessidade de auscultar o povo. Era uma ideia estúpida, mas as potências ocidentais toleraram-na entre 1945 e 1974. Agora temos uma «democracia representativa» – elegemos uns representantes que, eleitos, deixam de nos perguntar o que queremos que façam – eles sabem bem o que nós queremos – queremos ser roubados e ver incompetentes e ignorantes enriquecer, desviando fundos comunitários para as suas contas pessoais, queremos pagar a dívida que esses roubos provocaram, queremos que nos reduzam salários e pensões, queremos ficar desempregados, ansiamos por emigrar…

 

 

 

“Democracia orgânica” e “democracia representativa” são modos de entregar as decisões a poderes económicos que nada têm a ver com os interesses das maiorias. Perante situações semelhantes – as de hoje e as de há meio século – temos atitudes diferentes. Quando 1961 terminou, os campos estavam definidos – fascistas e antifascistas. No último dia de 2011, parece que opressores e oprimidos, ladrões e roubados, estão misturados. Democratas. Democratas?

 

Quando é que acordamos?

 

Ah… é verdade – Boas festas! Um feliz 2012!

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