EDITORIAL – 2013: ANO NOVO?

Sabemos que o tempo é uma convenção que adquiriu espessura em diversos campos do conhecimento. Na Física, é uma grandeza que permite sequenciar por ordem de ocorrência, fenómenos e acontecimentos. O conceito de tempo é inerente a todas as civilizações e as diferenças entre calendários é uma evidência do seu carácter convencional. O tempo existe como apêndice do raciocínio. Durante séculos, milénios, foi medido pelos ciclos naturais e sem necessidade de recorrer a instrumentos. A industrialização que caracterizou o mundo laboral, deu ao tempo um carácter disciplinador e conferiu ao relógio um papel primordial na gestão das nossas vidas. Bem podem alguns filósofos dizer que o tempo não existe, não passa por nós – nós é que passamos. Para nós, os que seguimos o calendário gregoriano, hoje é o primeiro dia de um novo ano e por isso é costume proceder a um balanço sumário. O que não vamos fazer e daí a introdução. Ontem e hoje fazem parte de uma unidade indissolúvel – o tempo dos canalhas.

Imagem2Um calendário apoiado nos estádios da evolução social, diria que não mudamos de tempo há muito tempo. A periodização clássica da História, também não serve para nos ajudar. Percorrendo as suas etapas, Pré-história, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea, encontramos o traço comum de uma humanidade que se vai sofisticando, mas que não erradica os traços da sua animalidade. Os seres humanos vão confirmando o seu carácter racional, mas não conseguem dar o salto qualitativo que os transforme em verdadeiros seres humanos. Das cavernas, em que o mais arguto desferia a paulada de forma mais expedita aos nossos dias, em que os de maior esperteza conseguem viver melhor do que outros menos argutos e talvez mais humanos, aparte uns artefactos, nada mudou.

Há pouco tempo, há menos de três séculos, começámos a dissertar sobre a igualdade e o direito a partilhar os bens de forma justa e equitativa. Mas essas especulações não passaram disso, de especulações. O socialismo foi uma luz que se acendeu nas trevas da longa idade dos canalhas e que parecia ir inaugurar um novo tempo. Mas tem sido rebate falso. Passemos a um discurso menos vago.

O socialismo, apesar de, em seu nome se terem organizado estados autoritários, se terem cometido atropelos à democracia e cometido as maiores ignomínias; apesar de fazer parte do nome de partidos que em nada respeitam os princípios do ideal socialista, continua a ser um capital de esperança para os que desejam um mundo mais fraterno e justo.. O socialismo tem sido uma palavra cujo campo semântico é vasto, ilimitado, cobrindo desde as ideias mais puras e fraternas até a pesadelos vividos em estados policiais que usurparam a palavra, passando por estes neo-liberais que, com despudor, ousam designar-se socialistas.  A história os julgará. A demanda do socialismo deve continuar – e esta utopia de toda a humanidade conviver numa comunidade fraterna, igualitária e livre, é algo porque vale a pena lutar. Ainda que o homem, raiz e medida de todas as coisas, tenha de mudar para que a vida mude também e a sociedade se transforme, terminando o tempo dos canalhas e dos animais racionais e comece o tempo dos seres humanos. Só nessa altura se poderá falar de Ano Novo. Em 2013, continuaremos num ano velho.

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