Continuando as citações do livro anteriormente referido:
“Eu sempre defendi que esta é uma profissão que foi feitas para nos divertirmos. Não quero parecer snob, mas aprecio muito o termo que usam os franceses: para dizer “representar”, eles usam jouer, que na nossa língua corresponde a “jogar”. Nós italianos dizemos “recitare”, que já soa a fingido, a falso, a construído.
No que respeita ao “sofrimento do actor”, aconteceu-me várias vezes ler entrevistas feitas a grandes astros americanos os quais, parece que para “entrar nas personagens”, passam por tormentos, por grandes sofrimentos. Há quem se feche num convento; e quem vá para o alto de uma montanha reflectir. Nunca percebi porquê. Se considerarmos esta profissão um jogo, uma brincadeira, e nos recordarmos de como brincávamos em crianças aos polícias e ladrões… Mas para quê esse tormento, para quê sofrer tanto?
Compreendo-o se não nos chamarem para trabalhar, se se esqueceram de nós: então é claro que há sofrimento; se tivermos dívidas a pagar e não tivermos trabalho, o sofrimento é este – e não representar.
PARADOXE SUR LE COMÉDIEN (PARTE II)
O Paradoxo de Diderot é só isto: a sensibilidade torna os actores limitados, ou pelo menos medíocres. Vão perguntar como é possível. Bem, Diderot via assim as coisas, e eu creio que tinha razão: são miolos e sangue frio que fazem o grande actor.
Recentemente, com Vittorio Gassman, dissemos numa entrevista que o actor é uma caixa vazia. Lá dentro Não há nada. Esta caixa o actor enche-a de vez em quando com personagens; e no fim transforma-se numa espécie de mala cheia de caras, de tipos, da qual vaia tirando qualquer coisa e se serve dela para interpretar uma nova personagem.
Segundo Diderot, o actor representa por instinto, com o coração, tem dias bons e maus, altos e baixos. Em contrapartida, o actor que aponta para o controlo é como um espelho que reflecte uma cena com crescente precisão, força e verdade.
Mas é possível pôr um limite exacto entre o instinto e o controlo, entre o coração e o cérebro? Bah, não sei. Eu tento compreender o que sou nesta profissão, mas não o consigo totalmente.
Uma vez fora do set ou do palco, o actor muda de roupa, põe de lado as dores ou as alegrias da personagem que interpretou. Na realidade foi só o público que sentiu as emoções. O actor, como já disse outras vezes, é um aldrabão que se mexeu, mas na realidade… sim, sentindo alguma coisa, mas na realidade sem sentir nada. Senão a sua profissão torná-lo-ia o homem mais infeliz do mundo, não? como se podem viver de todas as vezes as dores, dos dramas, e depois levá-los consigo?
TORMENTO: A SAÍDA (DA PERSOSNAGEM)
Representar é um prazer, é uma grande emoção. Porque uma pessoa vai fantasiando, contando histórias, às vezes divertidas, outras vezes trágicas – mas nunca estando realmente envolvido nelas.
…
Só que o público acredita, quando de facto lê histórias destes tormentos e sofrimentos do actor. E acredita também a crítica. Porque se deitarmos assim as coisas da boca para fora, com maneiras desenvoltas, e dissermos que ter esta profissão é um divertimento, na realidade acabamos por ser considerados uns levianos. Se pelo contrário se disser: “Tive de estudar seis meses…” … E depois para sair da personagem, que trabalheira! Eu digo para comigo: “Tu à noite quando voltas para casa, o que fazes? Continuas? E a tua mulher não te cospe na cara? O que fazes, sentas-te à mesa continuando a fazer de quem tem o tormento da personagem?” em suma, parece-me um tanto excessivo.
Esta é uma profissão maravilhosa: pagam-nos para brincarmos. E todos aplaudem. Sim, se tivermos um mínimo de qualidade. Porém, o que mais se pode exigir?”
