Site icon A Viagem dos Argonautas

Um comentário ao Diário de Bordo de hoje. Por Júlio Marques Mota.

Meu caro João Machado

 

Obrigado por este diário de bordo. Olhemos para dois pontos.

 

1. O Eurointelligence Daily News de ontem traz-nos uma nota sobre Espanha: o FMI prevê que o nosso vizinho terá grandes dificuldades para cumprir as metas do défice fixadas para a zona euro. Para evitar uma recessão brutal, recomenda-lhe que dê prioridade a evitar a recessão sobre o cumprimento daquelas metas. É de seguir com atenção este caso, e comparar com o que vai sucedendo em Portugal, onde o cumprimento das metas do défice (para além de se evitar recorrer a alternativas para reduzir o défice que não o corte de salários e benefícios sociais) é uma vaca sagrada

 

2. Parece entretanto que os CDS (Credit Default Swaps) estão, em relação a Portugal, a ver a sua cotação subir vertiginosamente. A subida deste seguro de crédito é um indício de instabilidade, por que traduz a falta de confiança no mercado financeiro. Este sistema de seguro parece também ser muito permeável a manobras financeiras, como as que estivaram na origem da crise iniciada em 2008 (e que parece arrastar-se indefinidamente). Mares cada vez mais revoltos, portanto, diante da nossa barca.

 

 

1.Uma vez, numa peça supostamente vivida em conjunto passaram por dois ignorantes, mas tu mais que eu confessa lá, sobre produtos derivados! E eis-me que me deparo a ver-te lavrar numa terra inóspita, alheia a todos nós, o terreno dos CDS.


Há dias num texto da Standard and Poor’s estes reconheciam-se como guias, como indicadores aos mercados. Ora os CDS são exactamente isso, são os marcadores da tensão sobre as taxas de juro soberanas e no final são eles que mais pressionam sobre as taxas a vigorar. Compreende-se que assim seja. Imaginemos, um título alemão, a render 2%, sem risco. Ora imaginemos que os CDS sobre Portugal estão a 12%. Para comprar um título português e sem risco como o alemão eu terei que comprar um CDS e pago 12%. Mas como quero ter líquidos e bem garantidos os meus 2% dos títulos alemães, então só aceito comprar títulos portugueses se eles me renderem pelo menos 14%, os 2% alemães, mais os 12 % a pagar aos CDS para neutralizar o risco com os títulos de Portugal.


Ora, a este nível, e sublinhe-se que os mercados dos CDS são mercados de poucos operadores mas de grandes operadores, percebe-se, que o que se passa é deixarmos as políticas económicas nas mãos de homens e mulheres sem rosto, de verdadeiros criminosos ao serviço do respeito por números que são autênticos disparos de bazuca sobre cada país e portanto sobre cada um de nós. Esta é a lógica dos mercados que o Durão Barroso aceita e legaliza, e portanto, face aos homens sem rosto que assim agem há responsáveis, e discordo de Pezarat Correia, estes responsáveis são os que legitimam este tipo de comportamentos. Legais, é o mercado, dizem-nos eles.


Oh! oh! Oh! Meu amigo João, porque estamos os dois afinal a passar por estúpidos, se é o mercado! Mas, sinceramente, será isto o mercado ou será a selva, a selva permitida, pelos tratados consentida, pelos mercados pretendida. Porque não se perguntou nada disto ao Durão Barroso, quando esteve em Guimarães? Olhemos para os dados do FMI publicados ontem, olhemos para o gráfico abaixo:

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dispensam-se comentários.

 

2. Retomando agora a Espanha.

 

 

No último press release de Standard and Poor’s ameaçava-se a Espanha de voltar a baixar a notação se a Espanha não acelerasse as reformas no mercado de trabalho. Como é que as Instituições Europeias permitem que organismos estranhos à Comissão como as Agências de rating (ou será que não são?) venham agora estipular as políticas a seguir, em vez de estas serem estipuladas pelos seus eleitores, pelos seus Parlamentos nacionais?

 

 

Oh meu amigo João, agora que todos os governos se estão a vender à China, agora que a própria Standard and Poor’s ataca a União pelas políticas de austeridade porque não geram crescimento, mas agora que esta Agência quer ao mesmo tempo mais medidas de flexibilidade que conduzem obrigatoriamente a mais baixas condições de vida e a mais baixos salários, logo a mais baixa procura, logo a mais baixa taxa de crescimento, logo a mais baixa taxa de emprego, por onde quer a Standard and Poor’s coerentemente seguir?    Por onde quer ela encontrar a via de maior produção. Assim só há uma, a de que os Estados Europeus se posicionem no mercado internacional a concorrer com os salários da China, e como as tecnologias são as mesmas, isso significa que só poderemos concorrer contra China se tivermos salários ainda mais baixos e ritmos de trabalho ainda mais elevados.

 

 

Esse é o futuro que nos promete, meu bom amigo.

 

 

Júlio Mota 

Exit mobile version