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Um postal para o “ignorante” em CDS que é o nosso argonauta João Machado – III. Por Júlio Marques Mota.

(Continuação)

 

Grécia e outros CDS soberanos

 

Sobre os CDS de títulos soberanos da Europa Ocidental em geral, utiliza-se a cláusula de “a antiga reestruturação “. Com o termo “antiga”, não há limites de maturidades de vencimento sobre títulos passíveis de serem entregues, portanto, nunca haverá leilão com conjuntos de títulos de diferentes maturidades. Se um evento de crédito pudesse amanhã ser provado e se nenhuma das suas contrapartes tivesse falhado, tivesse falido, o montante máximo que poderia ser então liquidado com CDS de referência sobre dívida soberana grega é 3,7 mil milhões. Mesmo este montante é avaliado por alto, está sobrestimado, porque assume um preço final igual a zero a ser estipulado em leilão. Se o preço final for, por exemplo, 50%, então o montante total a mudar de mãos para a liquidação de CDS, numa base líquida quando tudo estiver dito e feito, quando tudo estiver resolvido, seria então de cerca de 1,85 mil milhões.


Estamos assim muito longe dos 75 mil milhões citados acima. Não é de espantar. Vejamos uma situação equivalente com a falência do Lehmon Brothers. Como referiu a Sajayt Das relativamente a este banco o Lehman Brothers:


“Para darmos um exemplo bem perto de nós e bem no centro da crise, vejamos o caso do Lehman Brothers. Quando o Lehman Brothers faliu, o seu endividamento atingia cerca de 600 mil milhões de dólares. Segundo as estimativas de mercado, o Lehman Brothers era a entidade de referência de contratos CDS num montante situado entre os 400 e os 500 milhares de milhões de dólares. No caso de cobertura física dos títulos, títulos detidos por quem procura a segurança, os contratos CDS teriam simplesmente levado a uma transferência das perdas dos credores para os vendedores da cobertura, com a perda global constante, transferência de uns para os outros, dos credores do banco para os vendedores da segurança. As estimativas do mercado situam em 150 mil milhões de dólares os contratos CDS efectuados para este efeito. Os restantes 250 a 350 mil milhões seriam pois cobertura sobre títulos de crédito sobre o Lehman Brothers que não existiam, isto, contratos efectuados sem subjacente, contratos nus.”


Mas mesmo estes números estão muito longe do que mais tarde se veio a confirmar. Como refere Christian Chavagneux em Une histoire des crises financières, (2011) “o mercado dos CDS é um mercado complexo; é mesmo muito difícil saber o que nesse mercado se passa verdadeiramente. Disso, temos como bom exemplo a ilustração que nos dá a falência de Lehmon Brothers; as primeiras estimativas incidindo sobre o nível de contratos considerados estarem a cobrir um risco de falência era avaliado em 360 milhares de milhões. Em Outubro sabia-se que o montante era de … de 72 milhares de milhões. O mercado dos CDS tem igualmente como característica que, para colocar um fim ao contrato, um comprador do CDS pode fazer a posição inversa vendendo um contrato nas mesmas condições., um contrato inverso, para anular a sua posição. Uma vez tomadas em conta as múltiplas transacções, as transferências reais de dinheiro ligadas à falência do banco atingiram apenas…5,2 mil milhões. Entre as primeiras estimativas que contribuíram para alimentar o pânico geral e os pagamentos efectuados, o fosso foi enorme, enormíssimo. A existência de um mercado dos chamados CDS, complexo, opaco, concentrado, contagioso e pouco líquido, só faz acrescer a instabilidade financeira.”

 

Aqui seja-se claro e Chavagneux explica-nos bem quando nos diz : “Entre as primeiras estimativas que contribuíram para alimentar o pânico geral e os pagamentos efectuados, o fosso foi enorme, enormíssimo”. Fala-se de pânico geral, fala-se de volatilidade,  e é neste mar   extremamente agitado que os especuladores se alimentam, os big fish, como dizia Phil Gross da PIMCO..  Mas perguntar-se-á nesta sequência como é possível que três anos depois da crise estalar,  a instabilidade em todos os mercados seja diariamente alimentada pela incapacidade europeia  em dar resposta à crise, incapaz de ajudar os Estados soberanos face à crise da dívida soberana  mas tornando o BCE disponível a apoiar os grandes bancos , fornecendo-lhes a baixo preço as munições, a liquidez, com que a seguir estes  atrofiam os Estados soberanos, comprando-lhes a alto preço os títulos da dívida.  Incompetência? Maldade? Ignorância? Qualquer um destes atributos seria suficiente para que uma vez ganha a consciência política desse realidade os povos europeus se levantem em simultâneo e exigem a demissão dos que devem  ser acusados de serem os responsáveis. Qualquer um dos atributos, dissemos, mas quando olhamos para os gráficos abaixo, somos levar a reconhecer que os três atributos se verificam em simultâneo em quase todos os políticos da zona euro e das suas organizações. Se se temos dúvidas, basta olhar para o triunvirato Passos Coelho, Álvaro Ramos Pereira, e Gaspar que de Baltazar nada tem e digam-me se cada um deles não respeita por inteiro os três atributos desta outra trilogia que acabámos de assinalar. Veja-se por exemplo, o que se passa com a Justiça em Portugal. Estava mal, muito mal, toda a gente o reconhecia e a solução foi reduzir drasticamente os recursos disponíveis nesta área com, no limite, o encerramento de muitos tribunais. Simples, portanto, basta destruír.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Responsáveis por isto? Responsáveis por estes enormes prejuízos que não estão a crédito nas contas dos países que os sofreram, das pessoas que deles não usufruíram? Impossível dizer que se desconhecem esses responsáveis, apontam-se quase a dedo. É evidente que hoje sabemos que quem governa, melhor, que quem nos desgoverna na Europa, são os mercados, mas fazem-no sob permissão que soberanamente lhes foi concedida, fazem-no, e têm procuradores para as tarefas politicamente incómodas, como exigir a soberania orçamental da Grécia, a ser depois entregue a agentes pagos a peso de ouro na Troika para essa independência receberem. A guerra e a ocupação por outros meios, afinal, fazendo da Grécia o meio para esconder a vergonha do modelo económico e social em que nos querem manter enfiados, instrumento igualmente, para a partir da situação definida para este país, tudo o que democraticamente pode ser considerado de abuso, possa assim ser justificado. A Grécia e todos os outros, com as costas bem largas. 

 

Mas voltemos ao nosso exemplo, que esse sim tem directamente a ver com a Grécia em que a ambiguidade, a opacidade, é um elemento chave na  política da incerteza que desde há três anos faz parte do quotidiano de todos os europeus.


Como é que uma quantidade tão pequena está a causar uma tão enorme preocupação (ou distracção) nos meios políticos? Já existe a proibição de negociar os CDS nus, os naked short, mas pelo menos é certo e está escrito no papel de tal forma que os participantes do mercado podem lê-lo e para isso se podem preparar. E óptimo, se parte ou a totalidade do mercado de CDS estiver para ser totalmente proibida ou o que quer que seja, então que se avance, porque sem fazer nada contra isto é que não se pode estar.


Entretanto e por ausência da primeira trilogia acima referida, honestidade, competência  e transparência,  e da verificação da segunda, incompetência, maldade, Ignorância, o que se tem feito sucessivamente é criar uma política que vive do boato, do rumor, Desde há três anos , não se tem parado de interferir nesse sentido, através da introdução da mais profunda incerteza no mercado, dia a dia, leilão a leilão de títulos soberanos, rating a rating, ameaça por ameaça das baixas futuras das notas destas agências. O mercado já está cheio dela, mesmo sem as reestruturações da dívida feitas através da super-engenharia financeira e sem os resgates financeiros que virão mais tarde.

 

(Continua)

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