Um pequeno postal ao ignorante do meu amigo João Machado quanto ao papel que ele e eu fazemos normalmente quando nos interrogamos sobre os CDS. Porque assim é, aqui lhe deixo a ideia, ou talvez a prova, de que o sistema neoliberal provoca a opacidade para dela melhor viver. Quem falava verdade sobre os valores dos CDS sobre o Lehman Brothers, quem fala verdade com os valores da Grécia? Quem fala verdade sobre a eventual destruição de nações inteiras com estas armas de destruição maciça, disparadas sucessivamente pelos mercados financeiros com a ajuda das Instituições Europeias e dos seus principais servidores, com um dos grandes paióis de munições sediado em Londres, a City de seu nome, e com muitos outros dispersos pelo mundo e que dão ares exóticos na sua maior parte, Ilhas Caimão. Jersey, Hong-Kong, Mónaco, S. Marino, Liechtenstein, Suiça, Holanda, etc. Um nunca mais acabar de locais na lista da optimização fiscal e de locais de sedes de Hedge funds, grandes operadores sobre CDS, os grandes especuladores na venda a descoberto, quando muitos deles são eles próprios propriedade dos grandes bancos. E quem fala verdade, afinal?
Ora meu querido amigo, o equilíbrio das sociedades é um bem comum e como tal deve ser respeitado. Porque se admite então um mercado opaco que este equilíbrio coloca em perigo? Porque se admite que nenhum organismo oficial tenha a percepção clara dos valores em jogo? Como é possível alimentar a incerteza e não exigir, em nome da estabilidade europeia a comunicação dos valores em presença, banco a banco, instituição financeira a instituição financeira. Impossível, porque são instituições privadas, só com o consentimento delas, dir-me-ão, é que estes valores se podem conhecer. De resto foi esta a resposta a que deram a um autoridade americana quando a CFTC, (Commodity Futures Trading Commission) a bolsa de mercadorias, tinha criado isenções especiais para… o banco Goldman Sachs ter posições especulativas especiais!. A autoridade americana quis saber do que se tratava e na CFTC recusaram-lhe dizer, com o argumento espantoso que se tratava de um acordo especial entre a CFTC e uma entidade privada e portanto só o poderiam informar se a instituição privada o autorizasse!
Meu querido amigo, somos sobre estas matérias verdadeiramente ignorantes e é verdade, mas somo-lo não porque não sejamos capazes de aprender, de perceber o que são CDS, somo-los porque não sabemos como é que se calcula a probabilidade de incumprimento de um país dado, somo-lo, porque sempre nos ensinaram que um prémio de risco bem calculado não pode nunca, de modo nenhum, constituir um rendimento, pois o prémio de risco deve apenas compensar as perdas estatisticamente inevitáveis e historicamente confirmáveis, e deve ser portanto estatisticamente de ganho nulo, e não sabemos portanto como é que é assim estatisticamente, pois o que sabemos é que uma grande parte dos recursos de uma nação são deslocados para a finança onde se ganha milhões a viver do risco provocado, e last but not the least, somos grandes ignorantes nestas matérias, meu amigo, porque não podemos saber o que andam de todos nós a esconder: ninguém sabe ao certo em cada momento os valores envolvidos em CDS de cada país. Em suma somos ignorantes nestas matérias porque isso convém aos mercados. Instale-se o pânico e os ganhos tornam-se fáceis. A opacidade é assim um atribuído garantido aos que fazem da especulação o seu modo de vida, fora e dentro das salas de mercado e creio que objectivamente esta opacidade está a ser intencionalmente mantida mesmo no quadro europeu porque vem permitir que se possam justificar todas as políticas de austeridade inimagináveis, há ainda três anos, e com estas a funcionarem como verdadeiros tiros de basuka atirados para o coração de cada país, a sua economia, permite-se refazer a estrutura de classes de cada país e refazer as condições para a maximização da taxa de lucro segundo a exigência do return on equity, a famosa regra dos fundos de investimento e outros, a ROE. É intencional, pois, manterem-nos na ignorância, e por essa via, com o medo dos CDS destrói-se, por exemplo, a sociedade grega mas não se resolve a questão da dívida em tempo útil. Entretanto, pede-se-lhe a cabeça, a ser utilizada como oferta à Imperial Alemanha.
Salvem primeiro os países, foi a expressão de James Galbraith, acabe-se com esta palhaçada de garantir o direito à destruição das sociedades, mas para isso precisamos de saber como é, que armas são estas, como são, como actuam e também quem são os responsáveis nominalmente pela sua utilização. Só assim a opacidade desaparecerá, meu bom amigo, tão ignorante como aquele que estas linhas te escreve e disso te acusa.
Júlio Marques Mota
Sobre a política de verdade ou da mentira
1. Como é que os valores do CDS funcionam em termos brutos e líquidos
A partir de um texto de Lisa Pollack, Financial Times, Outubro. 2011.
De acordo com a DTCC, o valor em contractos CDS será de 75 mil milhões de dólares em termos brutos emitidos sobre a dívida grega. Contudo os valores de nocional ou de referência destes CDS quando calculados em termos líquidos sobre estes mesmos valores reduzem-se substancialmente para 3,7 mil milhões de dólares.
Porque é que estamos com valores tão diferentes? E como é que eles são construídos?
Vejamos um exemplo simples, onde existem quatro bancos envolvidos em sete contractos sobre CDS. Aqui, na tabela abaixo, um valor positivo significa que o banco é comprador de segurança, compra o contrato CDS, é comprador da protecção que o CDS lhe confere, e se o valor é negativo, ao contrário do caso anterior, o banco é então um vendedor de segurança, sobre títulos gregos ou seja, um banco é comprador do risco sobre os títulos da dívida pública grega. Em suma, um banco é comprador de CDS, quando no quadro abaixo se tem sinal positivo e um banco é vendedor de segurança, vendedor de CDS, se no quadro abaixo se tem valor negativo.
No exemplo acima, com o contrato 1 o Banco A compra segurança sobre 12 mil milhões de CDS vendida essa segurança pelo Banco C, daí os sinais mais em A e menos em C. Olhando para os sete contratos o valor do total dos CDS em vigor é de 132 mil milhões, valor que se obtém pela soma dos sete contratos, sem fazer dupla soma, registe-se.
Uma vez que os contractos são todos eles fungíveis entre si, isto é, são entre si equivalentes (e o mercado dos CDS através de uma estandartização feita desde há um par de anos atrás melhorou assim a fungibilidade), então para qualquer banco dado, a posição de compra e a posição de venda podem ser somados, dados os sinais mais e menos, para se conseguir assim a posição geral de qualquer banco em termos líquidos. E uma vez que este é um universo delimitado de operadores, a soma de todas as posições líquidas de todos os quatro bancos dá portanto o valor zero.
A posição líquida vista pelo lado dos compradores de segurança sobre títulos da dívida grega é assim (11 + 44) ou vista pelos vendedores é de (38 + 17), ou seja, 55 milhares de milhões. Esse número, 55, é o valor líquido e é este que deve ser comparado com o valor nocional bruto, o valor total dos contratos, que essa é de 132 milhares de milhões de dólares.
Se um acontecimento de crédito ocorre, provocando os pagamentos dos CDS, então é realizado um leilão para determinar o montante de liquidação final para todos os contratos em aberto, que se dá porque os títulos deixam de ter preço no mercado enquanto tal e se não têm preço, como se calcula a diferença entre o preço de mercado e o valor facial do título, ou o valor do seguro do mesmo título? Aparentemente impossível. A questão é tanto mais séria quando no mercado financeiro, que tem tanto de real como de virtual é um mundo sem limites, podemos depararmos com CDS a representarem 10 a 15 vezes o valor dos títulos emitidos tanta foi a venda de segurança para títulos que nem sequer existiam. Mas num mundo virtual nada disso interessa, o que nos interessa é o valor das apostas que são realizadas, desde que haja jogadores de um lado e do outro da linha, da compra e da venda de segurança. O grande problema é que esse mundo virtual onde se pode jogar sem limites, ou ter como limite apenas o céu, esse mundo virtual é também o nosso mundo real. O caso paradigmático deu-se com a Delphi, grande produtora de peças para automóveis, com uma “capitalização” em CDS dez vezes superior ao valor dos títulos emitidos. Um mercado é então “organizado” para estabelecer o valor residual, o nosso leilão, então.
Se ocorreu ou não um acontecimento de crédito isso é decidido pelo comité da ISDA que também decide quais são os títulos válidos para entrar no leilão. Por aqui se compreende a enorme pressão para que a reestruturação da dívida grega seja voluntária e informal. Voluntária, quer dizer, aceite e se aceite não se pode depois reclamar dos CDS. Informal, porque não há nenhuma declaração de incumprimento, não portanto há nenhuma declaração oficial que ative o processo de liquidação dos CDS. Honestidade, competência e transparência é uma trilogia que não abunda ou não se verifica, não se pratica mesmo pela Comissão Europeia e pelos dirigentes europeus que, em vez de se assumirem com reformas radicais face aos mercados, andam com estes a brincar ao gato e ao gato, e o problema é com isso fazerem de nós os ratos de superfície disponíveis para seremos comidos. Aqui um bom exemplo, são os decisores privados que decidem o que é representa uma situação de “défaut”, são os decisores privados quer as consequências contabilísticas que daí se devem tirar, facto este que ilustremos com a volatilização das capitalizações bolsistas dos bancos.
(Continua)
