ENTRADA EM VIGOR DA PROIBIÇÃO DOS CDS NUS, por Anne – Laure de Guzman

Selecção, tradução e nota de apresentação de Júlio Marques Mota 

Entrou  em vigor a proibição dos CDS nus, entrou em vigor a permissão  dos CDS despidos, foi a decisão da União Europeia, e este é, pois,  o nosso pequeno comentário ao presente texto aqui apresentado e que pedagogicamente é de grande qualidade. E continue a ser bem-vindo ao templo e  ao  tempo do sistema da mentira triunfante gerado em Bruxelas. Mais uma prova desse sistema que o bando dos quatro, Rompuy, Barroso, Juncker, Draghi,  manipula tão habilidosamente.

Júlio Marques Mota

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Entrada em vigor da proibição dos CDS nus

Anne – Laure de Guzman, Dezembro de 2012

O pequeno mercado dos CDS  serve como um instrumento de coordenação para se  especular contra os Estados europeus. Para neutralizar a especulação, a União Europeia acaba de se dotar com um nova regulamentação que  entrou em vigor em 1 de Novembro último. Infelizmente, esta nova lei ambiciosa e pioneira sofre de lacunas que a tornam verdadeiramente ineficaz. Ela oferece  um bom exemplo da captura do plano política feito ou organizado pelos interesses de um único sector económico, a finança.

CDS - I

Pequeno manual  de Finanças: como especular contra um Estado?

Dois métodos deram já as suas  “provas”: a venda a descoberto, as chamadas posições curtas no mercado obrigacionista ou as vendas nuas sobre o mercado CDS, ou seja a compra de CDS sobre títulos que se não têm.  Tomemos dois  exemplos. Se acharmos que a  Espanha será incapaz de reduzir o seu défice até 2013 como ela se  comprometeu  então poderemos  ganhar dinheiro apostando contra este país durante a sua próxima emissão de obrigações. Para o poder fazer,  precisamos de  encontrar um investidor  no mercado que deseje  adquirir títulos espanhóis aquando do seu próximo leilão. Poderemos vender-lhe a prazo  estas obrigações, apostando que os preços serão mais baixos do que pensa o nosso potencialmente cliente, o nosso potencial comprador. Nós não  compramos os  títulos hoje, não os temos hoje. Podemos  comprá-los  no momento da entrega, no momento do leilão. Iremos  ganhar se as nossas  expectativas estiverem  correctas: se o preço dos títulos espanhóis caiu por causa da deterioração da situação económica então iremos comprá-los mais baratos do que o  preço a que antecipadamente os  vendemos  para entrega, hoje.  Fizemos pois uma venda a descoberto:  vendemos um produto que não  tínhamos, comprámo-lo  na data da entrega e isto a venda a descoberto, a posição curta, a short position.

Mas há uma outra maneira de operar sobre o que a nova legislação europeia tenta  neutralizar, tenta combater. Em vez de estarmos a apostar com as vendas a descoberto podemos  apostar  no mercado dos CDS, ou seja, no mercado de seguros contra o fracasso da Espanha. Este mercado é mais pequeno, mais  concentrado, assim é mais fácil fazê-lo mexer que do que o mercado de títulos em obrigações. Não é de modo nenhum necessário que a Espanha declare falência para que possamos ganhar dinheiro!  Compremos  CDS espanhóis  (sobre o estado ou sobre o banco Santander) hoje para os vender quando o risco estiver a ser  maior: podemos pois revender a protecção que anteriormente comprámos mas agora a um preço mais alto. … Um detalhe: não  precisa de ter nenhuma obrigação espanhola, sequer!  Elas não nos servem para nada pois o  que  nós negociámos a comprar e a vender foram só os  CDS, uma vez que é a revenda deste últimos que pode permitir ter lucros.  Nunca tivemos a intenção de comprar os títulos e de os assegurar…  Os CDS são produtos comercializáveis, cuja variação do preços varia de acordo  com a oferta e a procura. E é precisamente este o interesse de um pequeno mercado mas líquido: neste caso menor é a quantidade necessária para fazer mexer os preços e ganhar com essa variação que nós mesmos, se temos força, podemos provocar.

CDS - II

A directiva entrada em vigor a 1 de Novembro de 2012 proíbe essas duas estratégias: vendas a descoberto das obrigações soberanas e a troca de CDS a descoberto, CDS ditos nus. Hoje se quisermos apostar no mercado CDS, somos obrigados a manter na nossa carteira de títulos os títulos a que se referem os CDS , ou pelo menos, títulos muito próximos

Finalmente, uma lei corajosa produzida pela Comissão Europeia! A proibição  dos CDS a nu  que foi encarada nos Estados Unidos e, em seguida, abandonada em  2009, é decisão europeia pioneira! Nunca mais é  possível especular contra os Estados europeus…

Salvo se:

A proibição não é aplicada para os “criadores de mercado” (market makers). Quem são estes? Para  estarmos  certos que um mercado funciona, alguns operadores comprometem-se sempre a comprar ou vender um título  para qualquer pessoa que  o pretenda comprar ou vender (eles simplesmente determinam  o preço da transacção). È isto a liquidez  do mercado. Por exemplo, Morgan Stanley é um formador de mercado muito activo no mercado de CDS. o banco fornece preços para todas as transacções de mercado continuamente. “Eles são pois  muito  úteis estes criadores de mercado.” Será que se pode imaginar  proibir  os CDS a nu a estes  operadores, em especial?  Simplesmente, não haveria mais liquidez! “Isso é essencialmente o argumento utilizado pelos principais bancos para negociar as  excepções, as isenções. Em particular é este o argumento que justifica a isenção destes criadores de mercado sobre a proibição  de transaccionarem CDS nus sobre títulos soberano  na Europa. Os criadores de mercado ganharam: eles podem continuar a trocarem  de CDS sem terem  as obrigações subjacentes.

Mas  não dissemos nós  que o mercado estava altamente concentrado?   Cerca de 87.2% das transacções foram efectuadas por 15 dos mais grandes bancos do mundo… que são todos eles  criadores de mercado?  Por  outras palavras, a regra será aplicada a todos… excepto para os principais actores de  mercado.  Ao que parece também os grandes bancos franceses estariam actualmente a discutirem  com a autoridade dos mercados financeiros europeus (ESMA) a definição exacta do que é formador de mercado (market maker) para  estarem certos de que também ficarão isentos:

Certo. Mas  então e  os Hedge Funds? Estes não são formadores de mercados, eles são clientes . A directiva  ser-lhes-á então aplicada!

Salvo se:

Salvo se é  só o mercado dos CDS sobre  títulos soberanos  que está  em questão.  É sempre possível  ter CDS  sobre um título bancário  sem ter esse mesmo  título. Assim vai ser fácil contornar a proibição de apostar contra um Estado apostando   contra um dos seus bancos (Santander no exemplo  acima). Quando  se   pensa na fragilidade  dos bancos espanhóis, até trememos…

Em conclusão, a ideia de adoptar uma tal lei era  louvável. Mas o diabo está sempre escondido nos pequenos detalhes. O sector financeiro defendeu os seus interesses durante a elaboração da lei. Há uma necessidade urgente de nos dotáramos  dos meios suficientes para poderem servir de contrapeso  nas negociações.  A Associação Finance Watch  foi criada precisamente com esse objectivo: estar presente e fazer ouvir a sua voz , a voz  da sociedade civil na elaboração  das reformas financeiras. Simplesmente, falamos de David contra Golias…

Ou será então o mundo ao contrário como no-lo coloca o presente cartoon:

CDS - III

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