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Nós não queremos morrer nos escombros do neoliberalismo – por Pierre Larrouturou*

 

         *Membro do Colectivo Roosevelt 2012 

 

 

       Traduzido e enviado por Júlio Marques Mota

 

“Os sistemas mantêm-se frequentemente muito mais tempo do que o que nós somos levados a pensar, mas acabam por se afundar muito mais rapidamente do que também nós o imaginávamos.” Em poucas palavras, o antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Kenneth Rogoff, resume bem a situação da economia mundial. Quanto ao governador do Banco da Inglaterra, diz que “a próxima crise pode ser bem mais grave do que a de 1930″…

A zona euro não vai bem, mas os Estados Unidos e a China, muitas vezes apresentados como sendo os dois motores da economia mundial, na verdade não vão melhor,  são duas verdadeiras bombas de explosão retardada: a dívida total dos Estados Unidos atinge358% do produto interno bruto (PIB); a bolha imobiliária chinesa, que representa quase três vezes mais o valor da que aconteceu nos Estados Unidos antes da crise dita de sub-prime, começa agora a explodir.

Tendo em conta o contexto internacional, como pode o PS ou a UMP continuar a apostar tudo por tudo sobre oretorno do crescimento? Há uma possibilidade em mil do sonho se tornar realidade. “Isto vai ser terrível, disse-me recentemente um dirigente socialista. Não há nenhuma margem de manobra. A partir do mês de Junho começar-se-ão a congelar as despesas. Em poucos meses, o país vai estar paralisado por manifestações monstruosas e, em 2014, teremos um resultado histórico nas eleições.”

A austeridade, será a única solução? A esquerda no poder estará condenada a desiludir? Não. A história mostra que é possível escapar à “espiral da morte” na qual os nossos países estão em vias de se deixarem cercar.

EM 1933

Em 1933, quando Roosevelt chegou ao poder, os Estados Unidos tinham 14 milhões de desempregados, a produção industrial tinha diminuído cercade 45% em três anos.

Roosevelt agiu com uma determinação e uma rapidez que rapidamente reanimou a confiança: certas leis são apresentadas, discutidas, votadas e promulgadas no mesmo dia.

O seuobjectivo não é de modo nenhum o de”acalmar os mercados financeiros”, mas sim o de os domar.

O seu objectivo não é o de”dar sentido à austeridade”, mas sim o de reconstruir a justiça social. Os accionistas estão furiosos e opõem-se com todas as suas forças àlei de separação entre bancos comerciais e bancos de investimento,opõem-se aos impostos sobre os rendimentos mais elevados e também se opõem à criação de um imposto federal sobre os lucros.

 

Mas Roosevelt mantém-se firme e faz aprovar quinze reformas fundamentais em três meses.As catástrofes anunciadas pelos financeiros não se concretizaram. Antes pelo contrário! A economia dos EUA viveu muito bem com essas regras durante meio século.

O que fez Roosevelt em matéria económica não foi claramente suficiente (sem a economia de guerra, os E.U. teriam caído em recessão), mas as reformas que ele impôs no sector bancário e sobre as questões fiscais atingiram plenamente os seus objectivos.

Até à chegada de Ronald Reagan em 1981, a economia americana funcionou sem ter necessidade nem de dívida privada nem de dívida pública.

Enquanto que, durante cerca de trinta anos, as regras do fordismo asseguraram uma repartição equitativa do valor acrescentado entre os trabalhadores e os accionistas, a política de desregulamentação em 30 anos fez passar a parte dos salários de67% para57% do PIB nos países membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), o que levou a aumentar quer a dívida pública – porque os impostos sobre os salários e sobre o consumo são o primeiro recurso dos Estados – quera dívida privada porque os trabalhadores tiveram que se endividar para manterem o seu nível de consumo.

É por causa do desemprego e da pobreza que a parte dos salários decaiu tão fortemente em todos os nossos países: o desemprego não é apenas uma consequência da crise que nós vivemos desde hácinco anos, é também uma das suas causas fundamentais. Não será possível sair da crise sem atacar frontalmente o desemprego e a precariedade.

Por muito que desagrade aos neoliberais, não estamos a enfrentar uma crise do Estado-Providência, mas estamos sim emface deuma crise do capitalismo cuja extremagravidade torna insuficientes as respostas clássicasdo Estado-Providência. A justiça social não é um luxo ao qual devemos renunciar por causa da crise; a reconstrução da justiça social é a única maneira de sair da crise!

 

 

Duas estratégias são possíveis para o próximo Presidente da República:

quer pense que a crise estará terminada em breve e que simplesmente bastará uma boa gestão das finanças públicas para passar uns poucos meses difíceis que nos separam da boa retoma, querpense que nãonos resta mais que um tempo limitado antes de um possível colapso do sistema, o que ele deve então fazer é agir rapidamente,é “fazer as coisas à moda de Roosevelt”: organizar um novo BrettonWoodsa partir de Julho de 2012, pôr um fim aos privilégios incríveis dos bancos privados no financiamento da dívida pública, combater frontalmente os paraísos fiscais e lutar sem tréguas contra o desemprego e a pobreza, lançando desde o mês de Maio uma iniciativa como osEstados Gerais do emprego: três meses de trabalho com todos os parceiros em causa para construir um novo contrato social, comoofizeram em 1982 os holandeses ao assinarem o acordo de Wassenaar.
Qual é o papel histórico da esquerda europeia? Geriro colapso do modelo neoliberal, prontoaté mesmo a morrer nos seus escombros ou,pelo contrário, dar origem a uma nova sociedade, antes que a crise, como na década de 1930,venha a desencadear abarbárie?
Para forçar o próximo Presidente à audácia, nós criámos o ColectivoRoosevelt 2012: com StéphaneHessel, Edgar Morin, Susan George, Michel Rocard, René Passet, Dominique Méda, Lilian Thuram, Robert Castel, Bruno Gaccio, Roland Gori, Gaël Giraud, a Fundação Abbé-Pierre, a Fundação Danielle Mitterrand,aLiga do Ensino, a Geração Precária e muitos outros e o nosso objectivo é bem simples: provocar o sobressalto!

Se partilha a nossa necessidade, junte-se ao colectivo assinando o seu manifesto e as quinze propostas de reformas em: www.roosevelt2012.fr.

 

Pierre Larrouturou, Membro do ColectivoRoosevelt 2012

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