Qualquer pessoa dotada de um pouco de sensatez e de sentimentos solidários, ao ler notícias sobre os países do Próximo ou do Médio Oriente, fica com uma considerável preocupação sobre como viverão as suas populações e quais as perspectivas de futuro que se lhes oferecem. Constatando a insegurança e as ameaças que sobre elas pesam, tendo em conta a instabilidade política, a proliferação de conflitos, o reavivar do fanatismo religioso, talvez se consiga ter perceber um pouco a génese do drama que nos relata El País, na sua edição de domingo passado, numa reportagem com o título Guerreros de Ceuta. Um jovem taxista de Ceuta, Rachid, casado e com filhos, por influência de um grupo religioso, deixou a família, e com alguns amigos foi combater na Síria contra Assad. A família soube da sua morte por um telefonema de um desses amigos. A reportagem dá-nos alguns dados sobre a situação social em que se encontra a população de Ceuta, e as influências das redes religiosas. Mostra com clareza como uma população numa situação social precária (em Ceuta o desemprego jovem ultrapassa os 60%) é permeável a influências de fanatismos e os seus elementos são facilmente arrastados para causas cujos fundamentos não percebem.
Assad, será de recordar, é Alauíta, um grupo ligado aos xiitas, uma das facções principais do islamismo. A guerra contra ele é alimentada pelos sunitas, dominantes na Arábia Saudita, um dos principais aliados dos norte-americanos na região. A Irmandade Muçulmana, cujo candidato, Mohamed Morsi, acaba de vencer as eleições presidenciais no Egipto, também é sunita. A crescente influência religiosa e a divisão entre muçulmanos parecem avançar de mãos dadas, por toda a região, com reflexos nas regiões vizinhas.
Um factor fundamental para o avanço da democracia foi a separação da Igreja e do Estado, no Ocidente e no resto do Mundo. Essa separação está a ser posta em causa por todo o lado, e não só nos países de maioria islâmica. Contudo, estes estão numa situação de fragilidade política e económica, que os torna particularmente vulneráveis. Formar ali estados fortes, democráticos, laicos, que defendam os interesses das populações, para cujo serviço deveriam trabalhar exclusivamente, torna-se assim cada vez mais difícil.
