DOIS POEMAS, de Sílvio Castro
“Brahms construtivo”
Desde logo, com o doce piano de dois iniciais Quartetos
Brahms sofreia o ardor do sentimento desolado,
procurando no mesmo sentimento aquela forma pronta
a fazer da emoção viva razão que a comoção confronta.
Ao incontido e desejado impulso de cantar os sonhos
surgidos dos sentimentos e pulsações sentidas,
o canto reparte da emoção contida no só limitar
a voz que sonha para, cantando, outra voz entoar.
Brahms canta e dança vinte e uma vezes os mais distantes
impulsos vindos dos outros que dançaram e cantaram
como ele aos sons dos violinos mágicos e ciganos,
agora para ele fontes puras e sem enganos.
Dança e canta na procura insone da perfeita forma
que conforma os sonhos de um Requiem alemão
e universal na força das vozes coletivas levantadas
para definir os sentimentos plúrimos implantados.
Sentimentalmente aberta à razão que opera a voz
da obra completada, a música se faz ilimitado canto
de beleza, no íntimo do espaço conformado ou no incontido
universo de sons fônicos e afônicos, da partitura ao canto idos.
Uma 4ª. Sinfonia é a maior voz para razão e comoção:
por ela corro e canto em 4 movimentos 4 sempre em Allegro.
(de Poemas Construtivos, 2007)
“Rostropoviè, 1927-2007“
Os buldozers continuam a abrir buracos no Muro
de Berlim e a gente em multidão passa
de este a oeste neste outono de 1989;
passa sem cessar em meio à insólita névoa quente
do outono que invés de folhas mortas faz cair pedras
do Muro de Berlim.
Em meio aos restos do Muro derrubado e à poeira
levantada, a gente caminha sempre para a frente,
sentindo ao longe, entre poeira, calor e névoa, os sons
incontidos de um violoncelo mágico –
Rostropoviè toca infinitamente as 6 Suites de Bach
à gente do este e do oeste para sempre além do Muro.
(de Poemas Construtivos, 2007)