Arrumada a cozinha do jantar e aconchegado meu filho na sua cama com uma história infantil, regressava fechando a porta e ia fumar um cigarro para a janela parapeito da noite. Era uma espécie de ritual quotidiano de um tempo único, só meu.
Isolava-me do ruído da rua, proveniente do outro lado da casa, suspiro do bairro fatigado do seu dia de trabalho. Era pouco comum escolher uma janela da frente. A rua, estreita e de intenso trânsito rodoviário, ligando a Almirante Reis ao bairro da Graça, tornara-se hostil ao sossego mesmo nas serenas noites de verão. Nas traseiras convivia com a imaginação e abria-me ao murmúrio dos pensamentos enquanto retirava do fumo do cigarro o prazer da serenidade absoluta.
Em miúda tinha necessidade de possuir o meu próprio espaço interior a fim de criar fantasias que derivavam por mundos estranhos, imensas vezes acompanhada por um amigo imaginário com o qual compartilhava as minhas emoções. A janela de hoje representava um pouco o meu quarto de ontem, espaço onírico onde uma noite, inesperadamente, abriu-se um corredor dourado com o encanto de uma voz feminina senhora do segredo da purificação. Alguma coisa de maravilhoso acontecia perante aquele timbre cristalino cuja vibração transmitia arrepios.
Nas noites seguintes passei a estar acompanhada pelas melodias que a voz transportava em cadência quente e doce, atravessando tudo para ir direito ao coração. A vibração do seu canto ora voava sobre os telhados ora se acantonava nas esquinas das almas acarinhando-as com a sua melodia. Habituei-me a partilhar momentos de felicidade com a voz desconhecida, disposta a a comunicar comigo.
Suprema ventura! Cerrava os olhos para sentir a alquimia dos sons na sublime metamorfose do canto.
Até onde fui nessas noites?
Até à beira-mar passeando com o marido e o filho; à vivacidade dos dias de trabalho antes da empresa encerrar; à primeira viagem a Londres na juventude; aos cacilheiros cruzando o Tejo na sua rotina de beleza; às solidões do amor, aos sonhos interrompidos e a outros que hão de vir porque viver sem sonhos é viver isolada do destino.
Do meu poiso observava pequeninas janelas iluminadas pelo tempo de outras vidas, destinos desconhecidos mas também abençoados pela voz que empurrava o silêncio conferindo esperança à solidão das almas. Cristalina como o fio de Ariane agitava o brilho da lua com modulações correspondentes ao cântico das ondas do mar.
Oh, minha companheira, minha amiga, minha deusa que me visitas com as tuas canções de amor até pousar na janela onde uma mulher aguarda-te como se fosses a pomba do Espírito Santo! Oh, voz de paixão, de carinho, de poesia! Voz que iluminas o meu espírito no sentido de aceitar as fadigas de cada dia. Sopro de vida que todas as noites aguardo.
Hoje, porém, abri a janela e fiquei sozinha. Nem a lua, nem as estrelas, nem as constelações responderam à minha inquietação. A noite arrefeceu. O ar fresco aproxima o outono. Um ventinho anuncia a queda das primeiras folhas, a melancolia da mudança da hora, a visita das chuvas, a chegada dos frios. Esta noite não tenho companhia. Possivelmente ausentou-se para outro bairro de Lisboa. Invade-me o desconforto da tristeza. Fumo um cigarro. Fecho a janela. O filho dorme e eu vou preencher a minha solidão ouvindo Bhahms.