
Daniel Filipe – Cabo Verde
(1925 – 1964)
MORNA
É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.
Os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.
(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)
E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
– subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
(de “A ilha e a solidão”)
Nasceu em Cabo Verde mas veio para Portugal com cerca de dois anos. Co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio”. Figura em várias antologias, designadamente em “Poesia portuguesa do após-guerra.1945-1965” (1965) e “Poetas portugueses modernos” (Rio de Janeiro, 1967). Assume a caboverdianidade com “A ilha e a solidão” (1957) e atinge uma dimensão universalizante com os seus livros “A invenção do amor” (1961), de que resultaria o filme de António Campos, e “Pátria, lugar de exílio” (1963).
