POESIA AO AMANHECER (14) – por Manuel Simões

Daniel Filipe – Cabo Verde

(1925 – 1964)

MORNA

É já saudade a vela, além.

Serena, a música esvoaça

na tarde calma, plúmbea, baça,

onde a tristeza se contém.

Os pares deslizam embrulhados

de sonhos em dobras inefáveis.

(Ó deuses lúbricos, ousáveis

erguer, então, na tarde morta

a eterna ronda de pecados

que ia bater de porta em porta!)

E ao ritmo túmido do canto

na solidão rubra da messe,

deixo correr o sal e o pranto

– subtil e magoado encanto

que o rosto núbil me envelhece.

(de “A ilha e a solidão”)

Nasceu em Cabo Verde mas veio para Portugal com cerca de dois anos. Co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio”. Figura em várias antologias, designadamente em “Poesia portuguesa do após-guerra.1945-1965” (1965) e “Poetas portugueses modernos” (Rio de Janeiro, 1967). Assume a caboverdianidade com “A ilha e a solidão” (1957) e atinge uma dimensão universalizante com os seus livros “A invenção do amor” (1961), de que resultaria o filme de António Campos, e “Pátria, lugar de exílio” (1963).

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