PAI E FILHO – por Fernando Correia da Silva
Um Café na Internet

O Júlio puxa os lençóis da cama, bate a almofada e diz para o velho que está sentado numa cadeira:
– Pai, vamos lá deitar.
– Eu quero ficar aqui.
– Mas não pode, não é cómodo, pode cair.
– Dá-me a bengala que eu não caio. Eu quero ficar aqui.
– Mas não pode, Pai.
– Já disse que eu quero ficar aqui.
– Ó Pai, não seja teimoso, por favor.
– Não me chateies, eu quero ficar aqui.
Dá uma veneta ao Júlio. Agarra no pai ao colo e transporta-o para a cama. Assustado, o velho grita:
– Eu caio, eu caio…
Júlio mete o pai na cama. Ajeita-lhe a roupa. E o velho diz:
– Triste vida a minha, agora já fazes comigo o que tu queres.
Gemendo, vira-se sobre o lado esquerdo. Coloca a mão sob o rosto. Fecha os olhos.
O Júlio leva a mão à testa. Fica-se, de olhar fixo, a contemplar o Tejo. Diz-me, fio de voz:
– Meia hora depois tinha morrido, passarinho.
Murmuro:
– Uma figura! Tão parecidos que vocês eram e andavam sempre à bulha. Porquê?
Responde:
– Talvez por isso mesmo…