Site icon A Viagem dos Argonautas

UM ALMANAQUE BERTRAND DE 1932 – por Magalhães dos Santos

Numa feirinha de antiguidades – em Vila do Conde, no terceiro domingo de cada mês – estavam à disposição vários almanaques Bertrand de muiiiiitos anos. Bem procurei o do meu ano de nascimento (1933) mas logo esse… não havia. Contentei-me com o de 1932.

É sempre – para mim – interessante e curioso fazer incursões no passado. Dá pra fazer comparanças. Positivas – umas. Negativas – outras. Nem lá vou nem faço míngua – algumas.

Nesse ano, ainda se escreviam os ph, os nn (annos, innocente), Suissa (hoje Suíça), os th (cathegorica, sem acento), -isação (-ização), gg (agravada), detraz (detrás), quaesquer (quaisquer), deprehender  (depreender), rithmo (ritmo), quantas outras grafias… que já não conheci, pois, quando acabei a Escola Primária, em 1944,  já se escrevia pelo que era, então, a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. Mas ainda me lembro de escrever pae (com e) e mãi (com i).

Os desenhos das anedotas ilustradas são de uma ingenuidade… tocante! As senhoras são sempre vestidas de… alta-roda! As criadas (hoje empregadas domésticas) também classicamente “arreadas”. Os homens de casaca ou “smoking”. Oh! que sociedade de abundância aqueles desenhos “refletiam”!

Nos colaboradores de quem se publicam textos, quantos nomes que ficaram… mas que julgo sem hoje pouquíssimo lidos, o que demonstra talvez lamentável esquecimento: Agostinho de Campos, Alberto d’Oliveira, Alfredo Pimentel, Anthero de Figueiredo, Augusto Gil, Bulhão Pato, Eugénio de Castro.

Por motivos de poupança de espaço, não continuo a exemplificação.

E termino com Eugénio de Castro porque encontrei um soneto desse excelente Poeta, que muito me agradou e que vou transcrever, para que os Prezados Companheiros de Tripulação e os Excelentíssimos Passageiros também tenham a oportunidade de se regalarem, se ele lhes cair no goto como a mim caiu.

Não me ficarei por esse.

Transcreverei um outro do mesmo Poeta (4 Mar 1869; m. 17 Ago 1944), dos poucos poemas que sei de cor. Por alguma razão será…

O tal que encasquetei é este:

Tua frieza aumenta o meu desejo

Tua frieza aumenta o meu desejo

Fecho os olhos para te esquecer

e, quanto mais procuro não te ver,

quanto mais fecho os olhos, mais te vejo.

Humildemente atrás de ti rastejo,

humildemente, sem te convencer,

enquanto sinto para mim crescer

dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te. Sei

que outro, feliz, ditoso como um rei,

enlaçará teu virgem corpo em flor.

O meu amor, no entanto, não se cansa:

amam metade os que amam com esp’rança,

amar sem esp’rança é o verdadeiro amor

Eugénio de Castro

E agora o que descobri no almanaque Bertrand de 1932:

                   CARTA

Se quero? Quero, sim, e vem depressa!

Esta casa estará cheia de flores!

Cá te espero amanhã! Não te demores!

Vem cedinho, vem logo que amanheça!

Não te vejo há dez anos! Recomeça

O meu céu negro a encher-se de esplendores!

O pior é que o tempo e os dissabores

De cãs branquearam já minha cabeça…

Vais estranhar-me, creio… Tu decerto

És hoje o que eras, conservando ainda

As mesmas tranças fartas e castanhas…

Tremo, de ti sentindo-me já tão perto…

Como tu eras há dez anos linda!

Não mudaste, pois não? Olha: não venhas!

Eugénio de Castro

Gostaram, Companheiros e Senhores Passageiros? Oxalá que sim! É sinal de que estou bem acompanhado nos meus gostos…

Magalhães dos Santos

Exit mobile version