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10 CANÇÕES DE LUÍS DE CAMÕES – CANÇÃO VIII – por Álvaro José Ferreira

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Organização de Álvaro José Ferreira

Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho

CANÇÃO VIII

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994). Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)

 

Tomei a triste pena

já de desesperado

de vos lembrar as muitas que padeço,

com ver que me condena

a ficar eu culpado

o mal que me tratais e o que mereço.

Confesso que conheço

que, em parte, eu causei

o mal em que me vejo,

pois sempre meu desejo

tão comprido, em vós cumprir deixei;

mas não tive suspeita

que seguísseis tenção tão imperfeita.

Se em vosso esquecimento

tão envolto estou

como os sinais demonstram, que mostrais;

vivo neste tormento,

lembranças mais não dou

que a que de razão tomar queirais:

olhai que me tratais

assi de dia em dia

com vossas esquivanças;

e as vossas esperanças,

de que, vãmente, eu me enriquecia,

renovam a memória;

pois com tê-la de vós, só tenho glória.

E se isto conhecêsseis

que é verdade pura

como ouro de Arábia reluzente,

inda que não quisésseis,

a condição tão dura

mudáreis noutra muito diferente.

E eu, como inocente

que estou neste caso,

isto em mãos pusera

de quem sentença dera

que ficasse o direito justo e raso,

se não arreceara

que a vós por mim, e a mim por vós matara.

Em vós escrita vi

vossa grande dureza,

e n’alma escrita está que de vós vive;

não que acabasse ali

sua grande firmeza

o triste desengano que então tive;

porque antes que a dor prive

de todos meus sentidos,

ao grande tormento

acode o entendimento

com dous fortes soldados, guarnecidos

de rica pedraria,

que ficam sendo minha luz e guia.

Destes acompanhado,

estou posto sem medo

a tudo o que o fatal destino ordene;

pode ser que, cansado,

ou seja tarde, ou cedo,

com pena de penar-me, me despene.

E quando me condene

(que isto é o que espero)

inda a maiores dores,

perdidos os temores,

por mais que venha, não direi: não quero.

Contudo estou tão forte

que nem me mudará a mesma morte.

Canção, se já não queres

ver tanta crueldade,

lá vás onde verás minha verdade.

 

* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel

Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa

URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra

http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

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