10 CANÇÕES DE LUÍS DE CAMÕES – VII – por Álvaro José Ferreira

CANÇÃO VII

Organização de Álvaro José Ferreira

Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho

CANÇÃO VII

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994)

Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)

Manda-me Amor que cante docemente

o que ele já em minha alma tem impresso

com pressuposto de desabafar-me;

e por que com meu mal seja contente,

diz que ser de tão lindos olhos preso,

contá-lo bastaria a contentar-me.

Este excelente modo de enganar-me

tomara eu só de Amor por interesse,

se não se arrependesse,

co a pena o engenho escurecendo.

Porém, a mais me atrevo,

em virtude do gesto de que escrevo;

e se é mais o que canto que o que entendo,

invoco o lindo aspeito,

que pode mais que Amor em meu defeito.

Sem conhecer Amor viver soía,

seu arco e seus enganos desprezando,

quando vivendo deles me mantinha.

O Amor enganoso, que fingia

mil vontades alheias enganando,

me fazia zombar de quem o tinha.

No Touro entrava Febo, e Progne vinha;

o corno de Aqueloo Flora entornava,

quando o Amor soltava

os fios de ouro, as tranças encrespadas

ao doce vento esquivas,

dos olhos rutilando chamas vivas,

e as rosas antre a neve semeadas,

co riso tão galante

que um peito desfizera de diamante.

Um não sei que suave, respirando,

causava um admirado e novo espanto,

que as cousas insensíveis o sentiam.

E as gárrulas aves levantando

vozes desordenadas em seu canto,

como em meu desejo se encendiam.

As fontes cristalinas não corriam,

inflamadas na linda vista pura;

florescia a verdura

que, andando, cos divinos pés tocava;

os ramos se abaixavam,

tendo enveja das ervas que pisavam

(ou porque tudo ante ela se abaixava).

Não houve cousa, enfim,

que não pasmasse dela, e eu de mim.

Porque quando vi dar entendimento

às cousas que o não tinham, o temor

me fez cuidar que efeito em mim faria.

Conheci-me não ter conhecimento;

e nisto só o tive, porque Amor

mo deixou, por que visse o que podia.

Tanta vingança Amor de mim queria

que mudava a humana natureza:

os montes e a dureza

deles, em mim, por troca, traspassava.

Oh, que gentil partido:

trocar o ser do monte sem sentido

pelo que num juízo humano estava!

Olhai que doce engano:

tirar comum proveito de meu dano!

Assi que, indo perdendo o sentimento

a parte racional, me entristecia

vê-la a um apetite sometida;

mas dentro na alma o fim do pensamento

por tão sublime causa me dezia

que era razão ser a razão vencida.

Assi que, quando a via ser perdida,

a mesma perdição a restaurava;

e em mansa paz estava

cada um com seu contrário num sujeito.

Oh, grão concerto este!

Quem será que não julgue por celeste

a causa donde vem tamanho efeito,

que faz num coração

que venha o apetite a ser razão?

Aqui senti de Amor a mor fineza,

como foi ver sentir o insensível,

e o ver a mim de mim mesmo perder-me.

Enfim, senti negar-se a natureza;

por onde cri que tudo era possível

aos lindos olhos seus, senão querer-me.

Despois que já senti desfalecer-me,

em lugar do sentido que perdia,

não sei que me escrevia

dentro n’alma, co as letras da memória,

o mais deste processo

co claro gesto juntamente impresso

que foi a causa de tão longa história.

Se bem a declarei,

eu não a escrevo, da alma a trasladei.

Canção, se quem te ler

não crer dos olhos lindos o que dizes,

pelo que em si escondem,

os sentidos humanos lhe respondem:

bem podem dos divinos ser juízes.

* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel

Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa

URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra

http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994)

Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995) [>> YouTube]

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* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel

Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa

URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra

http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

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