Site icon A Viagem dos Argonautas

NOBREZA, TOURADAS E TRADIÇÃO – por Carlos Loures

(O vídeo apresentado resulta de uma reportagem da “Ribeirinhas TV, o Canal de Notícias de Aveiro”, ao qual agradecemos)

Há temas que evitamos abordar neste blogue. Um deles, é do futebol. Muitos dos que aqui colaboram mais assiduamente, gostam de futebol; alguns são sócios de clubes que o praticam e frequentam os estádios. Nada temos contra um espectáculo (mais ou menos desportivo) que, quando bem jogado, é bonito. Porém, sabemos que o fair play que todos demonstramos relativamente às ideias políticas ou às religiões, se evapora quando o assunto é o futebol. Futebol só cá entra em bicos de pés e em plano neutro – aspectos históricos, grandes figuras, coisas consensuais.

Outro tema que evitamos é o das touradas. Não por ser fraccionante – pensamos não haver entre nós quem goste desse lamentável espectáculo, incompatível com todos os valores que defendemos. Evitamos falar de tauromaquia, porque só nos ocorrem termos menos próprios para qualificar toureiros, ganadeiros, forcados, aficcionados – essa corja que faz da tortura de animais um espectáculo em que os seres humanos se degradam e descem na corda evolucionária a estádios incompatíveis com qualquer civilização  digna de tal nome.  Geralmente, a gente ligada à tauromaquia é subsidiária da  nobreza, invocando genealogias verdadeiras ou imaginárias. Falando de nobreza, uma das (muitas) coisas que me fazem confusão na linguagem tauromáquica é a de certos touros que, segundo os doutos comentadores,  não se comportam de acordo com os cânones da «fiesta», sendo acusados de «falta de nobreza».

Vem isto a propósito do caso de Murtosa, Aveiro. Um tal Marcelo Mendes em cima do seu cavalo abalroou manifestantes que protestavam contra a realização de uma tourada na praia da Torreira. A besta de cima (a de baixo é inocente) não aprendeu que o direito de manifestação é uma prerrogativa constitucional daquelas que o actual executivo ainda não extinguiu. Como o cavaleiro tauromáquico decerto pretendia, as pessoas fugiam para não ser pisadas pelo animal de baixo que o animal de cima contra elas fazia arremeter. Guardas da GNR, estacionados a poucos metros, não quiseram impedir esta manifestação da «nobreza toureira». O marialva, no mínimo, devia ter sido apeado e preso.

Há a história de um Marialva verdadeiro, um Conde de Marialva que, durante uma expedição a Tânger no século XV ,entrou a cavalo dentro de uma mesquita onde se haviam refugiado centenas de muçulmanos, velhos, mulheres e crianças – pois os homens válidos estavam a combater – e acutilando à esquerda e à direita, gente que apenas se podia defender erguendo os braços, matou, matou, até que exausto, pois já não era novo, o braço se cansou de matar de esquartejar, de fender crânios. A «populaça» arrancou-o de cima do cavalo. Mulheres, velhos, crianças, que ele não matara na sua arremetida, despedaçaram-no  tendo por armas apenas as mãos.

A populaça é como alguns touros. Não tem o sentido da nobreza.

Exit mobile version