Um Café na Internet
Enfermaria de hospital, Zé Vera numa das camas. Tem agora 85 anos e diz para Júlio, o filho que está a visitá-lo:
– A noite passada o vizinho aqui do lado bateu as botas, decidiu emigrar para o Jardim das Tabuletas. Eu cá me vou aguentando, por enquanto…
– O Doutor disse-me que lhe vai dar alta.
– Claro, precisam de camas, o corredor já está apinhado.
A enfermeira vai a sair. Um doente, velhote, de pijama e a arrastar os chinelos, aproxima-se dos Veras.
– Ó Zé Vera, você já viu como essa gaja é boa?
– Ó meu caro, tarde piaste, mi caballo se hay muerto…
Júlio ri, o velhote insiste:
– Ó Zé, você ainda se lembra da quadra?
– Talvez, deixe cá pensar…
Júlio quer saber do que estão os dois a falar e o velhote explica:
– Foi uma quadra que o seu pai fez ao vizinho dessa cama aí ao lado, e que passava a noite a peidar. Atenção, lá vem mais um, pum-pum-pum, perrum-pum-pum, não sei que mais. Foi cá uma galhofa que nem lhe digo… Até apareceu a chefe das enfermeiras por causa do chinfrim. De tanto rir, o peidorreiro sufocou, foi parar aos Cuidados Intensivos. Coitado, acabou por morrer.
Remata o Zé Vera:
– Morte linda, entrou a rir, e aos foguetes, no Purgatório…
Gargalhadas. Dos três. Até às lágrimas.
In QUERENÇA
