Site icon A Viagem dos Argonautas

EM COMBATE – 178 – por José Brandão

Batalhão de Caçadores 2895

MOÇAMBIQUE

1969-1971

No dia 31 de Outubro de 1969 parte para Moçambique o Batalhão de Caçadores 2895. No “Vera Cruz” seguem, além da Companhia de Caçadores 2623 que integra o 2895, os Batalhões de Artilharia 2897 e 2898 e, ainda, o Batalhão de Caçadores 2894.

Todos têm o mesmo destino: Norte de Moçambique.

O “Vera Cruz” vai carregado até ao máximo possível. A viagem tem a sua primeira paragem na capital angolana.

9 de Novembro de 1969. Estamos em Luanda e sobre a viagem não há nada de especial a dizer. Só vi foi mar, mar e mais mar desde que saímos de Lisboa.

Amanhã, pelas 6 horas da manhã, partimos para Moçambique no que deve ser mais sete dias de viagem.

Lourenço Marques, 16.11.69. Vamos estar dois dias aqui em Lourenço Marques, depois demoro mais três dias de barco até Nacala e depois mais dois dias de comboio até Catur que é onde vou ficar.

CATUR – Chego ao Catur após uma viagem que parece não ter fim.

Vou dar uma ideia do que é este quartel onde eu estou no Catur. É em pleno mato a mais de 700 quilómetros do mar e perto das fronteiras com o Malawi e mesmo da Tanzânia. O quartel é ao pé da estação do comboio e tem umas casernas de chapa de zinco pré-fabricado. O quartel não tem muro nenhum. Nestas zonas de combate em vez de muros de pedra, têm duas barreiras de arame farpado e quatro torres de vigia de cimento com projectores de luz. O arame farpado é todo à volta do quartel, com uma barreira mais avançada e outra mais recuada, esta última com uma pequena altura de terra batida. No meio do quartel está um morteiro de 81 mm. Isto é considerado zona de combate 100 por cento operacional.

Amanhã é Natal e está previsto que venham aqui ao Catur visitas do Movimento Nacional Feminino.

Este povo de Moçambique vive muito mal, miseravelmente. Ainda muito pior do que os que vivem mal na nossa terra. Não têm comer, nem casa, nem trabalho. O trabalho que lhes dão aqui é só para explorar até à última gota. Os senhores administradores dos concelhos são os reis e senhores, querem que os habitantes daqui, os de cor, trabalhem nas grandes herdades e quintas de grandes extensões. Trabalham que nem escravos e mal recebem para comer um pão.

No dia de Natal veio cá um coronel qualquer dar as boas-festas. Teve cá cinco minutos e lá se foi ele no avião para o seu confortável gabinete que, como não podia deixar de ser, fica na cidade e não no mato.

Hoje, 26, esperávamos cá um brigadeiro, o 2º comandante da região militar, mas, ou porque chove abundantemente, ou porque ele tem medo, ou porque não se está para maçar, há duas horas que ele era para vir e ainda não apareceu. Nem avião nem sombra dele. Também não faz cá falta nenhuma.

Aqui, não tem existido problemas graves, pelo menos com a nossa companhia. Têm rebentado umas minas que os guerrilheiros da Frelimo põem no meio das picadas (estradas) e tem havido alguns feridos mas não são daqui do quartel.

17.1.70. Isto agora tem aquecido um bocado. Os rapazes cá do quartel têm ido fazer umas operações e até agora felizmente não tem havido baixas a registar, pelo menos na minha companhia. Outras companhias já não poderão dizer o mesmo. Ainda há dois dias o quartel de Malapísia, onde está a Companhia 2623, que pertence ao meu batalhão, foi atacado em pleno dia mas não houve baixas. Ao pé de Vila Cabral a guerra está pior, até morrem capitães como há dias morreu um e dois ficaram gravemente feridos. O que morreu chamava-se Adelino Nunes Duarte e pertencia ao BCaç 16.

27.1.70. Há dois dias, perto daqui do quartel, rebentou uma mina quando uma camioneta da tropa ia a caminho de uma operação a uma base inimiga. A explosão da mina causou 6 feridos piores e alguns ligeiros. Como os feridos eram do meu batalhão vieram para aqui até serem evacuados pela a aviação que veio cá buscá-los para o hospital.

Hoje, dia 2.2.70, segunda-feira, cerca  das 15 horas estava eu mais outro colega ao pé da estação do comboio, a poucos metros do quartel, quando ouvimos um grande estrondo e tiros não muito longe de onde estávamos.

Fomos logo a correr para o quartel onde já se encontravam os carros com malta prontos para sair para o local do tiroteio e ver o que havia.

Eu fui logo para o posto de rádio e comuniquei com Vila Cabral para estarem em escuta pois devia de haver feridos e podia precisar da aviação.

Entretanto, um dos carros que tinha ido para o local da porrada já voltava a apitar muito pois trazia feridos.

Exit mobile version