Site icon A Viagem dos Argonautas

HISPANIDADE E INDEPENDÊNCIA – 1– por Carlos Loures

Sem esquecer, naturalmente, as questões relacionadas com a realidade portuguesa, somos um blogue  voltado para a divulgação dos valores da lusofonia e, ao mesmo tempo, para a defesa das causas independentistas das nações ibéricas, ocupadas e aculturadas pela língua e pela cultura castelhanas mercê da política centralizadora seguida desde há séculos pelos governos de Madrid. E nada temos contra a cultura e a língua castelhanas – é uma cultura esplendorosa e uma língua muito bela.

A questão que coloco é – hispanidade e independência, serão dois conceitos antinómicos? Ou seja, a circunstância geográfica da hispanidade implica obedecer a uma força centrípeta relativamente a Madrid?  Respondo já – obviamente que não. Aliás, Madrid é que foi criada em função da utopia, e para dar corpo a essa utopia. Pequena vila, próxima do centro geodésico da Península (que se situa em Getafe, a 14 quilómetros a sul) foi, a partir do século XVI engrandecida de modo a acolher a Corte e o coração de um império onde o sol nunca se punha..

Somos todos Hispanos, é o título de um ensaio de Natália Correia. Disso não há dúvidas – somos todos hispanos. O médico português Pedro Julião, nascido em Lisboa, aquele que viria a ser o papa João XXI, era conhecido por Pedro Hispano – com a nacionalidade proclamada há mais de um século, muito antes de os reis católicos unirem as suas coroas, os habitantes da Península eram assim designados – hispanos – somo-lo todos.

Porém , cada nação peninsular vive a hispanidade de forma diferente. Há uma raiz comum, pois a ocupação romana deixou marcas. A partir daí o substrato, as matrizes pré-românicas reapareceram e houve uma deriva que conferiu a cada nacionalidade características próprias. As fronteiras de Portugal foram imaginadas, conquistadas, defendidas… Portugal também foi uma utopia que se transformou em realidade. Numa realidade, por vezes, distópica, diga-se. Mas, umas vezes sonho, outras pesadelo, Portugal existe. E a Espanha, existe?

 Os catalães, os bascos, os navarros, os galegos, aceitaram a centralização, não a vendo como uma perda absoluta da sua independência. Até 1812, Madrid foi impondo a sua hegemonia sem a formalizar. Nas cortes de Cádis, que em Março passado celebraram o segundo centenário, nasceu Espanha – só então o sonho que três séculos antes uma castelhana e um catalão sonharam, se tomou corpo jurídico.

 Em Portugal o sofisma da indepenência não funcionou. Felipe II era o legítimo herdeiro do trono de Portugal, neto de D. Manuel. Com sua mãe, Isabel de Portugal, aprendera o português e falava-o sem acento. «É castelhano – não serve» foi o veredicto popular. E durante 60 anos em que não perdemos formalmente a independência, sentimos que nos tinham usurpado a pátria – tínhamos razão. Pouco antes de começarem as alterações de Évora, em 1637- Olivares projectava suprimir as independências dos reinos satélites de Castela.

 De modo algum estou a querer provar que somos mais valentes ou mais inteligentes. Provavelmente, considerados globalmente, até somos dos mais rústicos entre os hispanos. Mas a nossa hispanidade é vivida de frente para o mar e de costas para Madrid. Ganhamos pior, vivemos pior, e somos tão roubados e enganados como se fôssemos espanhóis ou mais ainda – Mas somos roubados e enganados por filhos de puta e não por hijos de puta.

Parecendo que não, faz alguma diferença.

Exit mobile version