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HISPANIDADE E INDEPENDÊNCIA – Conclusão – por Carlos Loures

Hispanidade nada tem a ver com o conceito de Espanha. Ou melhor, nada deveria ter a ver.

Tal como o interpretamos, Hispanidade é o sentimento fraterno de quem partilha um espaço geográfico, neste caso uma península. Todos temos a nossa aldeia, os citadinos a sua rua e o seu bairro. E se alguém da aldeia o do bairro tem êxito em qualquer actividade, dizemos  ufanamente – «Fulano? Ganhou o Nobel? É um rapaz do meu bairro!». Podia ser esse o convívio entre peninsulares – portugueses, galegos, catalães, navarros, bascos, castelhanos… Somos gente com qualidades – escrevemos bem, bons arquitectos, grandes pintores, cantores dos melhores, jogamos bem futebol – não faltariam motivos para nos congratularmos.

O conceito de Espanha, forjado quando a mentalidade feudal prevalecia, alimentado por dinastias de bastardos como os Habsburgos e os Bourbons, conservado nos braços do romantismo, quando a moda dos impérios era embalado por árias de Verdi ou de Puccini, e recuperado por  bandalhos fardados, generais traidores ao povo como Franco e o seu bando criminosos, rastejou até ao último quarto do século XX. E o estado democrático, manteve a decrépita monarquia,  um trono onde conserva o criado de quarto do ditador acabado de morrer. E conserva o conceito de uma Espanha, Una e Grande. Para respeitar a história, Arias Navarro, Adolfo Suárez e toda essa gente que montou a cena da transição, teria de ter renegado a herança franquista, julgado Juan Carlos como cúmplice da ditadura e reposto a legalidade que a Guerra Civil interrompeu – um governo republicano que, como estava a ser feito, quando o Exército de África invadiu a Península, promovesse a independência das nacionalidades subjugadas. Quais? Todas as que assim se considerassem. O remanescente podia chamar-se Espanha ou qualquer outra coisa que os habitantes do território decidissem. Mas não. A democracia aproveitou os restos do banquete fascista. Não liberta as nações oprimidas. Não restitui os territórios roubados a Marrocos e a Portugal (embora exija que a Grã-Bretanha devolva Gibraltar…)

 Enfim, vamos conversar. Espanha existe?

Para mim, Espanha talvez exista. Mas primeiro o estado espanhol teria de higienizar-se. Enquanto for como é, a hispanidade é algo de que em Portugal, pelo menos, soa a palavra equívoca.

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