A CANETA MÁGICA – «OS PORTUGUESES SÃO ESPANHÓIS ?’» . IV – por Carlos Loures

caneta1xA questão dos adjectivos pátrios, à qual já dediquei três posts, tem por mim sido colocada de forma atrabiliária, como numa conversa de café ou ao jeito das palestras televisivas do  saudoso Vitorino Nemésio (Se bem me lembro), em que a linha argumentativa ia sendo lateralizada e muitas vezes o tema proposto não chegava a ser aflorado – a diferença é que o  seu desvio metodológico não impedia o brilhantismo do discurso de  Nemésio.

Vou tentar neste quarto texto pôr ordem no assunto e conduzir a argumentação de uma forma mais ordenada. Ora vejamos: apurei que da Alta à Baixa Idade Média, os cognomes de alguns reis e imperadores configuravam projectos e não realidades; concluí que «espanhol, como nos ensina o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, provém do latim hispaniolu, diminutivo de hispânus, habitante da Península Hispânica. Nesta mesma obra, Machado situa no século XVIII – no vol. III das Cartas de Cavaleiro de Oliveira – a primeira vez em que espanhol é usado na nossa língua como sinónimo de castelhano,  súbdito do reino que viria a assumir forma juridica nas Cortes de Cádis (1812). Lembrei como Pedro Julião, o lisboeta que viria a se o papa João XXI, médico e humanista, era conhecido no universo cultural europeu por Pedro Hispano, sem que isso o incomodasse. Depois temos a frase de Camões – «espanhóis somos todos – falai de portugueses e castelhanos». Garrett dizendo que «somos espanhóis . mas nunca castelhanos» e Menéndez Pelayo garantindo que a nossa independência política não é afectada pelo facto geográfico de sermos espanhóis. Não esqueci a fórmula redutora de Natália Correia em Somos todos hispanos (1988), onde na colonização do Novo Mundo bipolariza a criação das novas culturas autóctones, esquecendo que nem só o castelhano e o português contribuiram para esse desenvolvimento crioulo. Em suma, arrumando este compartimento, espanhol e hispano são sinónimos, pelo que etimologicamente somos espanhóis e hispanos. Mas as línguas evoluem, as acepções dos vocábulos mudam e os conceitos de Espanha, espanhol, hispano, hispânico… mudaram também. Hoje, um espanhol é um súbdito de Su Majestad Felipe VI – a abrangência deste gentílico ficou reduzida aos cidadãos de um Estado que se chama Espanha, Os portugueses têm como gentilico pátrio a designação de lusitanos.

Mas aqui, como veremos no próximo artigo, «a porca torce o rabo». E de que maneira!

Leave a Reply