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O PATO ALGEMADO – III

O Pato algemado – III

HUMOR REAL – selecção de Sérgio Madeira

Não tem nada a ver com a Monarquia (Viva a República!).

Como sabem, real é um adjectivo com duas acepções diferentes e com etimologias também distintas – numa delas, o vocábulo vem do latim regale , régio, e tem a ver com os reis, aqueles tipos que usavam coroa e que aparecem nos baralhos de cartas (e nas revistas do coração); na outra acepção, vem do latim reale, e quer dizer que tem existência verdadeira, que não é imaginário ou fictício. É uma pérola de sabedoria, mas não têm nada que agradecer, deixem-se estar sentados.

Frases lapidares de Américo Tomás

«Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados….» – in revista Opção, ano II, n.º30

«…É uma terra [Manteigas]bem interessante, porque estando numa cova está a mais de 700 metros de altitude…» – in O Século, 1/6/1964

«A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance.» – in Diário de Notícias, 23/6/1964

«O Sr.Prof. Oliveira Salazar, ao longo de mais de trinta anos, é uma vida inteiramente sacrificada em proveito do país, e desconhecendo completamente todos os prazeres da vida, é um homem excepcional que não aparece, infelizmente, ao menos, uma vez em cada século, mas aparece raramente ao longo de todos os séculos.» – in Seara Nova, Maio 1965

«Eu prolongo no tempo esse anseio de V.Exª e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que Portugal será eterno, como eterno é o sono da morte.»- in Diário da Manhã, 14/9/1970

«Neste almoço ouvi vários discursos, que o Governador Civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos.» – in Diário de Notícias, 14/9/1970

«Pedi desculpa ao Sr.Eng.º Machado Vaz por fazer essa rectificação. Mas não havia razão para o fazer porque, na realidade, o Sr. Eng.º Machado Vaz referiu-se à altura do início do funcionamento dessa barragem e eu referi-me, afinal, à data da inauguração oficial. Ambas as datas estavam certas. E eu peço, agora, desculpa de ter pedido desculpa da outra vez ao Sr.Eng.º Machado Vaz.»- in Seara Nova, Agosto 1972

– Retirado do livro “Frases que fizeram a História de Portugal” por Ferreira Fernandes e João Ferreira

O estranho caso do pastor alemão – A Louca do Caldas – por

Sérgio Madeira

Filipe não queria pensar no pastor. Teria de encarar o caso, mas  não estava com disposição. O tom irónico com que o pastor Franz Boagren., lhe explicara num inglês fluente, que não conhecia Emanuel de Sousa e lhe apresentara provas ida impossibilidade de estar em Portugal na altura do crime, sobretudo o seu sorrisinho, irritou-o. O comboio chegou à Estação Central de Frankfurt. Segurando a pequena mala com a muda de roupa e objectos de higiene, tomou o comboio suburbano que em poucos minutos o pôs no aeroporto.  Feito o check-in, enquanto esperava a chamada recordou o caso da Louca do Caldas. Era um caso que desvendara, mas que dera trabalho e motivara deambulações .

Filipe fora encontrar-se com um cliente no bar Bora-Bora, ao cimo da Madalena. Num envelope, levara-lhe as fotografias da esposa a entrar na Pensão Zambézia e a sair quase duas horas depois acompanhada pelo guarda-livros da empresa familiar. Interrogara discretamente o dono e soubera que os encontros se faziam regularmente. Quarto com a utilização normal. Era gritona, a senhora. Provocava alvoroço por toda a pensão. Pormenores como este Filipe não os colocava no relatório. Tentava dourar a pílula.  Quando vira as fotos e lendo o relatório, o homem, desfizera-se em lágrimas. As provas permitiam-lhe um divórcio em condições favoráveis, como desejava – mas a sua auto-estima ficara a zeros. Passara-lhe um generoso cheque. Acompanhou o cliente até ao carro. Recusou a boleia e resolveu ir até ao escritório, guardar o cheque no cofre. Desceu a Madalena, pois o escritório ficava na Rua dos Correeiros. Foi quando no cruzamento com as escadinhas de Santa Justa, à porta da Polux. viu a Laura.

Laura, prostituta conhecida na zona da Betesga, era uma informadora frequente de Filipe. Era útil, pois estava sempre ao corrente dos mexericos. Estava estendida no passeio, moribunda,. Uma faca de cozinha cravada no peito prejudicava-lhe seriamente a respiração. Um pequeno grupo de colegas de trabalho, alguns transeuntes rodeavam-na. Filipe chegou -.se junto da rapariga.  disse – não mexam em nada! Os curiosos deram um passo atrás. A rapariga estava nas últimas e Filipe ajoelhou-se junto dela enquanto a ambulância do INEM travava junto do grupo. Antes do pessoal paramédico chegar conseguiu perguntar. – Quem foi? «. Louca… Caldas» – gorgolejou.

Morreu entre o Poço do Borratém e o Martim Moniz

Na manhã seguinte, trocando impressões com Marília, repetiram vezes sem conta as duas palavras. Até que Filipe deu um palmada na testa: Não é Louca das Caldas… – riu-se – É óbvio  louça das Caldas! – Louça das Caldas? – Marília corou – Daquela?…Filipe não deu pela perturbação da secretária,  « Sim… algum comerciante de Louça das Caldas. E munido com um retrato da rapariga assassinada partiu na manhã seguinte para as Caldas.

Passou dois dias a percorrer os estabelecimentos das Caldas, onde mostrava o retrato da Laura, ninguém conhecia. Foi comprando cavacas e os típicos  bibelôs locais de várias capacidades – o de cinco litros, deixou-o discretamente junto de um contentor de lixo. A secretária ligou-lhe pelo telemóvel com uma nova pista. Na véspera do crime, a Laura fora vista no Elefante Branco com uma maluca de cabelos compridos e nariz adunco que dava umas gargalhadas estranhas. E timidamente sugeriu se a Laura não teria querido dizer a Louca  e não Louça. Marlove nunca dava razão à Marília – se começasse a ter razão, tinha de lhe aumentar o ordenado. Por acaso, Marília acertara…  o assassino era um travesti conhecido por a  Louca do Caldas. Punha uma cabeleira e andava no engate, fazendo concorrência às profissionais. Laura fizera chantagem com a Louca e esta resolvera a questão, silenciando-a.. Quando, na esplanada da Duque de Loulé, explicou tudo ao inspector Pais este, depois de ter pelo telemóvel, mandado uma brigada prender o travesti, passou os dedos pelos bigodes e comentou: «Estrordinário!» Estes contributos que Marlove dava para a investigação judiciária e com os quais nada ganhava, eram a forma de poder exercer a sua actividade remunerada. O inspector Pais chamava-lhe «o imposto de palhota!». E arranjava-lhe clientes que pagavam bem, como no caso do pastor alemão. A útil cooperação com PJ  começara com o caso do Oliveira. O Oliveira do hospital. Pelos altifalantes ouviu a chamada para a sala de embarque.

A seguir – O Oliveira do hospital 

O Pato algemado

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