Site icon A Viagem dos Argonautas

UNIÃO IBÉRICA? – NI HABLAR! – 1 – por Carlos Loures

A ideia de uma Península Ibérica unida politicamente não é nova. Não falando em episódios históricos remotos, reportando-nos a tempos mais recentes, o ideal do Iberismo tem  dado que falar. Personalidades como Antero de Quental, Ana de Castro Osório, Latino Coelho, Sampaio Bruno, Teófilo Braga, entre os portugueses, manifestaram simpatia pela ideia. Do lado castelhano, refere-se quase sempre o nome de Miguel de Unamuno, o grande escritor e pensador basco, mas um homem da cultura castelhana.

O pioneiro da ideia na versão contemporânea terá sido um andaluz  – José Marchena y Ruíz de Cueto (1768-1821) – que no seu Aviso al pueblo español (1792), propôs uma federação ibérica e republicana. Outro pioneiro, foi o general catalão Joan Prim i Prats (1814-1870), que concebeu um modelo federal para Portugal e Espanha. Morto num atentado, foi a sua concepção de organização do Estado adoptada na Primeira República, proclamada em 1873 (sem a componente portuguesa).

Na Catalunha, a ideia colheu adeptos, destacando-se o grande poeta e filósofo Joan Maragall, o lusófilo Ignasi Ribera i Rovira, Francesc Pi i Margall , presidente da Primeira República Espanhola, em 1873. Mais recentemente ainda, portugueses como Miguel Torga, Fernando Lopes-Graça, Natália Correia, António Lobo Antunes, Eduardo Lourenço, José Saramago, entre outros, têm manifestado a sua simpatia por essa união que, olhando para o mapa da Europa, faz sentido. Falamos de uma união política, para concretização da qual seria necessário articular instrumentos constitucionais, limar arestas culturais, varrer preconceitos e desconfianças mútuos.

Teófilo Braga  planificou uma Federação Ibérica – Espanha   passaria a ser uma República,. Lisboa seria a capital da federação. Ana de Castro Osório via a união a três – «Catalunha, Castela, Portugal…Quem pudesse dar-lhes a autonomia que ambicionam os catalães e sem a qual hão-de estar sempre vexados e com razão!» A ideia das três entidades – Portugal, Castela e Catalunha, esquecendo a Galiza e o País Basco, enformava quase todas as teses iberistas do princípio do século XX, incluindo as de Unamuno, Ribera i Rovira, Maragall, Antero e Teófilo Braga. A ideia prevalecente era a de uma Federação de estados autónomos em quase todos os aspectos, com centros de decisão comuns – a política externa, por exemplo.

Em 1906, Joan Maragall, em artigo publicado no Diario de Barcelona, defendia o ideal do federalismo ibérico. Mais perto de nós, em 1963, o escritor catalão Agustì Calvet i Pasqual, que assinava os trabalhos jornalísticos como Gaziel, escrevia no La Vanguardia, também de Barcelona, que «Poucas vezes a insensatez humana terá estabelecido uma divisão mais falsa» (do que a das fronteiras peninsulares) «Nem a geografia, nem a etnografia nem a economia justificam esta brutal mutilação de um território único».

As federações socialistas do século XX,  pareciam funcionar bem – Jugoslávia, Checoslováquia, União Soviética… . No entanto, a guerra que dilacerou a Jugoslávia e restaurou a independência das seis nações que a constituíam, os problemas que irromperam na Federação Russa, particularmente na Tchechénia,  demonstra-nos que as nacionalidades são como os cursos de água que, durante as inundações, recuperam os leitos ocupados pelo cimento, usurpados pela ganância dos construtores civis. Podem ser submetidas pela força militar ou pela artimanha diplomática mas, mais tarde ou mais cedo, o sentimento patriótico explode no peito daqueles cuja independência foi suprimida.

Exit mobile version