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EM COMBATE – 192 – por José Brandão

“Os amigos que já não voltam”

(…) Decorria o dia 20 de Julho de 1971 e a manhã parecia ir ser igual a tantas outras. Há muito que a CCaç 3309 partira para Nova Torres (Aquartelamento junto ao rio Rovuma) ficando em Nangade apenas alguns condutores adidos ao Batalhão de Artilharia 2918 para “alinhar” nas colunas de reabastecimento. O Victor (a quem faltava cerca de um mês para ir de férias à “Metrópole”) conduzia um Unimog 404 em direcção ao posto das “Águas” situado num vale junto ao rio Litinguinha, na companhia do Sousa, 12 machambeiros e um Furriel responsável pela construção da estação de captação das águas que eram bombeadas daquele rio para abastecer o Aquartelamento e as populações de Nangade. A meio do trajecto, (cerca de 1,5 quilómetros) inexplicavelmente e por ser tão próximo do aquartelamento, dá-se uma violenta explosão de uma mina anti-carro altamente reforçada colocada pela FRELIMO na noite anterior, cujo cogumelo de fumo parecia ter escurecido todo o vale. De tão negro que era que parecia anunciar algo de trágico, que se veio a confirmar quando um pelotão da Companhia de Artilharia 2745 ali chegou e deparou com aquele cenário.

Espalhados no capim e pela picada, os corpos de oito machambeiros jaziam já inertes, enquanto os restantes agonizavam à espera dos primeiros socorros na companhia do Furriel que tivera apenas ferimentos ligeiros.

O Sousa teve morte imediata. O mesmo não aconteceu ao Victor (embora tivesse o mesmo fim) dado que com a explosão fora projectado para fora da viatura tendo caído no capim sem qualquer ferimento, sendo posteriormente atingido pelo Unimog 404 que devido ao impacto da explosão se elevara no ar indo cair em cima dele esmagando-lhe o corpo causando a sua morte.

A Companhia de Caçadores 3309 estava em Moçambique há apenas cinco meses quando ocorreram estas suas primeiras baixas em combate.

Carlos Vardasca

“…Uma insólita prenda de natal”

(…) O Planalto dos Macondes era uma das zonas nevrálgicas no norte de Moçambique onde se fazia sentir a influência da FRELIMO, sendo por esse facto alvo de várias operações por parte de forças operacionais do exército, dos comandos assim como das tropas Pára-quedistas.

Foi com esse objectivo que dois Grupos de Combate do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 31 acamparam em Nangade durante algum tempo, cuja missão era serem helitransportados para atacar a Base BOANE da FRELIMO próximo do lago Lidede. Dessa força de Pára-quedistas fazia parte o Duarte, meu velho amigo e companheiro de Santarém, que durante a sua permanência em Nangade me possibilitou usufruir do rancho melhorado que aquela força de pára-quedistas proporcionava aos seus soldados, comparado com o incaracterístico “arroz com peixe” que nos era servido repetitivamente até à exaustão no rancho do Batalhão de Artilharia 2918 estacionado em Nangade. Nessa base da FRELIMO então destruída foram capturadas algumas armas e vários documentos considerados importantes, assim como algumas caixas com propaganda ideológica onde se encontravam vários exemplares do Tomo I das Obras Escolhidas de Mao Tsetung. Como em todas as operações, há sempre quem queira ficar com algum “troféu” para recordação, e o Duarte, sabendo das minhas convicções (que por acaso também as partilhava), sem que o comandante do seu grupo de combate se apercebesse (claro que não foi só ele) escondeu nos bolsos do camuflado alguns exemplares daquela obra, apesar das ordens em contrário do mesmo oficial, que ordenou que tudo o que fosse encontrado teria que ser entregue para averiguações. Estávamos na noite do dia 24 de Dezembro de 1971, e quando aquela força de Pára-quedistas regressou da operação já com a noite a abater-se sobre o Aquartelamento, a primeira coisa que o Duarte fez, foi (antes de se deslocar para o seu acampamento) dirigir-se ao abrigo onde me encontrava e, acenando-me para que viesse ao seu encontro mas fora do abrigo, dizendo-me baixinho:

– Toma! – Eu sei que isto não tem nada a ver com a época mas é a minha prenda de natal. Acrescentando:

– Envolvi-o num velho papel de jornal que encontrei no caminho para o encobrir, mas vais gostar:

– Só peço que não o abras à frente dessa malta toda pois nós nem sabemos em quem confiar.

A minha curiosidade fez com que, mesmo antes de chegar à caserna, rasgasse o papel de jornal onde aquela insólita oferta vinha envolta e (depois de me aperceber do que se tratava) para minha satisfação mas ao mesmo tempo preocupação, refugiei-me na caserna a folhear as páginas daquela obra que já eram naquela altura (embora em surdina) a minha fonte de inspiração ideológica.

Mais tarde, e ainda no mesmo Aquartelamento mas em outras circunstâncias que não interessa ainda descrever (mas que o farei em outra altura que considere adequada) foram-me oferecidos outros volumes da mesma obra que ainda hoje os guardo (apesar de já não me rever naquelas teorias) dentro do “baú das minhas memórias” e relacionadas com aquele conflito, para onde fui enviado “sem jeito nem prosa” (…)

Carlos Vardasca

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