“Eles estavam em todo o lado onde houvesse resistência”
(…) Quando se iniciou a Guerra Colonial, o esforço da PIDE-DGS em tentar controlar todos os movimentos que lhes parecessem subversivos, fez com que esta polícia política fizesse destacar agentes seus para a maioria dos Aquartelamentos situados nas zonas de conflito, em especial para o norte de Moçambique onde a guerra era mais intensa. Não era difícil descortinar no meio de tanto militar e das populações dos aldeamentos onde andava um agente da PIDE-DGS, pois eles passeavam-se por Nangade exibindo a sua indumentária colonialista, assistindo sempre à chegada dos helicópteros ou dos Táxi-aéreos ou assistindo a qualquer cerimónia oficial.
Sempre que eram capturados elementos da guerrilha da FRELIMO, lá estavam eles, depois do tradicional interrogatório que era sempre violento, a encaminhá-los para o Táxi-aéreo para serem levados para a Ilha do Ibo e aí serem encarcerados até à sua libertação que não se sabia quando ou até serem esquecidos.
Pior sorte (dizia-se no “jornal da caserna” mas também confirmado por alguns pilotos) tinham aqueles guerrilheiros que eram transportados de helicóptero e não chegavam ao seu destino.
Alguns guerrilheiros (dizia-se), depois de devidamente amarrados e introduzidos no helicóptero e este levantar voo, antes de chegar ao seu destino eram lançados sobre o Oceano Índico tendo uma morte horrenda, sendo esta prática uma violação dos mais elementares direitos humanos dos prisioneiros em tempo de guerra, consagrados na Convenção de Genebra em 1949 (…)
Carlos Vardasca
“Sempre atentos à correspondência”
(…) A minha Companhia já tinha sido transferida para o Aquartelamento de Nova Torres e, muito poucos, na sua maioria condutores, ficámos em Nangade a prestar assistência às colunas de reabastecimento. Tivemos algum tempo sem qualquer responsável da nossa Companhia, e, quando se efectuava a distribuição do correio, tínhamos que nos dirigir ao Batalhão de Artilharia 2918 que fazia chegar a correspondência destinada aos soldados da CCaç 3309 que ali tinham ficado adidos. Naquele dia estranhei não ter correio, pois aguardava uma encomenda com algumas revistas, mas disse cá para mim: ” – Possivelmente vem no helicóptero da semana seguinte”. Quando me dirigia para a caserna ouço alguém que me chama e me pergunta:
“- És tu que és o Braz da CCaç 3309?”
Era um Alferes da CCS do BArt 2918 que me pediu para o acompanhar ao edifício de comando. Quando entrei, reparei que o tenente-coronel Vasconcelos Porto (comandante daquela companhia) tinha na mão uma encomenda que disse me ter sido enviada da “Metrópole” e que fez questão de ser ele a entregar-ma, para que a mesma não fosse violada, dado que o embrulho vinha todo rasgado podendo ver-se o seu conteúdo, onde reparei que eram as revistas “Salut les Copains” que recebia com regularidade e que pensava não terem chegado naquele helicóptero. Quando me preparava para retirar e agradecer a preocupação, um indivíduo à civil que se encontrava junto do tenente-coronel (mais tarde vim a saber que era da PIDE-DGS) interferiu dizendo-me:
” – Oh nosso soldado, esqueceu-se disto, e tenha lá cuidado com essas leituras” – acrescentando: ” – Essa mania de meterem estes livrécos no meio de revistinhas inocentes é uma táctica que nós já a conhecemos de ginjeira”.
Era a edição 41 dos Cadernos D. Quixote que versava o tema da Guerra do Vietname, e que pareceu incomodar tanto aquele eunuco do regime, ao ponto de fazer toda aquela encenação que pareceu ter a conivência daquele oficial. Antes de sair ainda me aconselhou que lesse antes as foto novelas da Corin Tellado ao que eu, disfarçando a minha ingenuidade, ainda lhe disse que aqueles Cadernos eram de venda e de circulação livre e Editados pelas Edições D. Quixote, ao que o agente respondeu já um pouco agressivo:
” – Oh nosso soldado, deixe-se de merdas; – são de venda livre mas nós sabemos a quem se dirigem e a mensagem que pretendem transmitir”
A partir daquele dia, fiquei sempre com a sensação de que as encomendas que me eram dirigidas eram sistematicamente violadas, por muito bem coladas que elas estivessem e sem qualquer suspeita de quem me as entregava (…)
Carlos Vardasca

é por isso que eu acho que muito ainda há por dizer do relacionamento entre a pide e a tropa .