O DIA A DIA EM ENCHEIA
O 3º Grupo de Combate passou a ocupar o pequeno aquartelamento de Encheia a partir de 5 de Junho de 1967. O primeiro dia foi passado a contabilizar os prejuízos da viagem.
Como o Grupo de Combate era composto por três secções, praticamente as emboscadas eram processadas a uma secção ou a duas, pois tinha que ficar alguém no aquartelamento.
O aquartelamento era composto por um quadrado de cerca de 100 metros por 100, com duas entradas: uma do lado do Rio Mansoa, que distava cerca de 1000 metros, e outra na mesma direcção, no sentido da rua principal e única de Encheia, onde existiam meia dúzia de casas de adobe, das quais três eram comerciais, e que servia também de pista de aviação.
Do lado do rio existia um armazém de cereais, desactivado e que era ocupado por alguns soldados. Do lado de Encheia existia uma caserna de adobes, que num dos lados dispunha de enfermaria e de uma pequena arrecadação de géneros.
Junto ao edifício dos quadros, havia um pequeno abrigo de bidões e areia, onde se situava o sistema de transmissões.
Do lado de trás da casa dos quadros, existia um pequeno abrigo para a fossa do morteiro (secção do Neto); por trás da casa do chefe de Posto, situavam-se antigas instalações de galinhas porcos e outros animais, que estavam a ser utilizadas pelos soldados.
O arame farpado que cercava o aquartelamento passava muito perto destas instalações.
Não existia luz eléctrica a qual só foi inaugurada em 10 de Junho. O gerador ficou instalado em abrigo junto à porta de entrada do lado de Encheia.
Doutra vez, andava eu, aflito com uma infecção num dente, com a cara inchada e como não encontrasse melhor medicamento, pedi ao enfermeiro que me desse uma injecção de um determinado medicamento; ao que ele me respondeu, que nunca tinha dado uma injecção.
Nesse dia, todos os nativos que recorreram ao posto médico levaram injecção dadas pelo enfermeiro e à noite ele deu-me a desejada injecção que me curou o abcesso
Como procurámos não incomodar, normalmente uma das secções, se dirigia ou à Fonte recolher água ou ia à lenha para nosso uso (cozedura do pão e para a cozinha); de vez em quando montávamos uma emboscada, ou íamos adquirir à força gado para nossa alimentação (vacas, galinhas, porcos).
Cumpríamos o ciclo de emboscadas que nos mandavam efectuar em apoio a operações desencadeadas pelas Companhias de Binar Biambi e também esporadicamente de Bissorã.
Como não tivéssemos um esquema montado de controlo das sentinelas, tínhamos sempre diariamente uns petiscos (normalmente rolas fritas, omeletas ou outros petiscos) que comíamos por volta da meia-noite, Antes das duas da manhã, normalmente passávamos uma ronda, e por essa hora deitávamo-nos.
Certo dia, (na madrugada de 26 de Julho de 1967) bateram-nos à porta da casa que habitávamos; ensonado, esfregando os olhos, de cuecas, abro a porta e qual não é o meu espanto, deparo com um grupo infindável de militares armados, que eu mal conheci, e só quando o nosso capitão pediu para falar com o Alferes eu prontamente fui ao quarto do Alferes Jesus, chamando-o, dizendo-lhe que o capitão estava lá fora.
Acontece que a Companhia entrou por ali dentro e não vislumbrou qualquer sentinela. O capitão passou um raspanete ao Alferes que só visto.
A partir daquela data, peguei nas minhas coisas e fui para o abrigo da minha secção, junto ao gerador da electricidade.
Publicada por Escrivão Mor
