Um tio de minha mãe, casado com uma irmã de meu avô, andou envolvido nas peripécias da implantação da República – droguista, era dono de duas drogarias na Graça, devia saber produzir aqueles artefactos que explodiam por toda a cidade, alguns fabricados com as pinhas ornamentais em ferro forjado que rematavam os corrimãos das escadas. Com a dose adequada de explosivo, fragmentavam-se ao detonar e provocavam estrago. Lembro-me de uma noite de Verão em que com o resto da família ouvindo rádio, ele me contou episódios da luta e o tormento que foi aquela noite de 4 para 5, quando o almirante Cândido dos Reis, julgando tudo perdido, se suicidou com um tiro na cabeça. Era o que se chama «um velho republicano». Morreu com mais de 90 anos e ainda teve a alegria de assistir à queda da ditadura que odiava. Na sala de visitas, no meio de quadros e retratos, havia uma bandeira nacional que não respeitava as normas especificadas, mas que andara nas ruas, no dia 5, quando a vitória foi confirmada.
Conheci outras pessoas que viveram esse dia e sempre me habituei a festejá-lo à minha maneira. Em 1958, eu estava lá, junto do monumento a António José de Almeida, quando o general Humberto Delgado veio colocar um ramo de flores na base do monumento e a polícia de choque e a GNR a cavalo resolveram carregar sobre os manifestantes, maioritariamente estudantes, e lançar bombas de gás lacrimogéneo. Quando as coisas acalmaram, o general, que tinha apanhado com o gás em cheio, da janela de um primeiro andar onde se recolheu, com os olhos vermelhos, fez um vibrante discurso improvisado que escutei lacrimejante também, mas resistindo à tentação de esfregar os olhos.
Em 1961, havia uma concentração estudantil para o mesmo local, marcada para as 10 ou 11 da manhã de 5 de Outubro. Fui e, imprudência, a minha mulher, grávida de seis meses, foi também. Grande multidão, flores, discursos, assobios quando se pronunciava o nome de Salazar, aplausos ao nome de Delgado e, subitamente, a GNR a cavalo e a PSP, como surgidos do nada, atacaram, espalhando o pânico. Vinham de baixo, da Avenida da República e os manifestantes fugiam na direcção do Técnico . Agarrando o braço da Helena, avaliei a situação – não tínhamos hipótese de escapar, pois ela não podia correr muito. Em poucas palavras expliquei-lho. E, dando meia-volta, avançámos na direcção da polícia. Devíamos ter o ar de um casal pacífico. Vermelhos de raiva e de cansaço os guardas deixaram-nos passar afastando-se, O meu raciocínio estava certo – quem caminhava na direcção da polícia e não fugia é porque não era manifestante. E escapámos ilesos. No Montecarlo bebemos um café. Foi um cinco de Outubro que não esquecemos mais. Que me desculpem os actuais agentes da PSP e da GNR – aquelas bestas, tinham o raciocínio de cães raivosos e a pior coisa que se pode fazer perante um cão agressivo é virar-lhe as costas e fugir. Quem foge transforma-se em presa.
Nós estamos a fugir da matilha de lulus que tomou o poder. Com ladridos amaricados, assumem a postura de mastins e vêm com os seus dentinhos morder-nos as canelas. Estão a precisar de um bom pontapé.
Peço também desculpa aos lulus pala comparação.
Os cãezinhos de estimação do poder económico vão acabar com um feriado dos mais significativos, enquanto conservam outros, cujo significado desconheço ou esqueci – fui à catequese, mas já foi há muito tempo e não me dei bem com o padre. Se esta corja de imbecis levar a sua avante, este é o último feriado de 5 de Outubro.
Abaixo a canzoada – Viva a República!
