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EDITORIAL: IDEOLOGIAS

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Está outra vez na moda tratar as ideologias como sendo nocivas ao progresso, ao bem-estar, a tudo. Abrimos a televisão  (ou lemos o jornal), e ouvimos cavalheir(α)s  (desculpem o modernismo; será que está bem escrito?) discutir assuntos muito arrevezados, e concluírem as suas intervenções com: “não há aqui ideologia nenhuma”, ou: “só há factos no que acabo de dizer, nenhuma ideologia”. Alguns vão mais longe e declaram que são contra as ideologias. Por vezes, dá vontade de perguntar se também são contra as ideias.

Sem querer entrar em  discussões muito elevadas, faz-se o reparo que qualquer programa de governo, qualquer programa eleitoral de um qualquer partido, pressupõe um conjunto de ideias minimamente coeso, e que esse conjunto forma uma ideologia, mesmo que não tenha um grau elevado de abstracção.  É importante fazer esta constatação, que tem sido ignorada bastantes vezes. Há mesmo quem tenha pretendido impor-se alegando não ser ideológico. E tem falhado a contestação a esta afirmação.

Vejam o caso do neoliberalismo. Há bem uns quarenta anos que se vem espalhando por todo o mundo. Hoje é dominante em quase todo o nosso planeta. Nem a China lhe escapa. Uma das suas principais defesas, talvez a principal, muito usada pelos seus adeptos, é negar a sua própria existência. Fica assim escondido, mais à vontade para actuar. O domínio do capitalismo financeiro por todo o lado, e em todos os sectores da economia, e da vida em geral, tem sido muito favorecido por essa ocultação. A liberdade do capital em relação aos restantes factores de produção, e às regulamentações dos poderes públicos, é um dos pontos culminantes desta ideologia. Para se concretizar, precisa que os estados desenvolvam a sua acção no sentido de os capitalistas poderem investir onde acham melhor, melhor dito, onde têm mais lucro. Não acham que as saídas de Passos Coelho sobre o ensino, na quinta-feira, foram um exemplo  nesse sentido?

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