Episódios da crise do Covid em Espanha: da ignorância da uma certa grande imprensa à incompetência da gestão autonómica de Madrid – alguns textos de análise. 7. Matar o vírus a bastonadas. Por Alicia Ramos

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

7. Matar o vírus a bastonadas

 Por Alicia Ramos

Publicado por em 30/09/2020 (ver aqui)

 

La boca del logo

 

Houve uma época na minha vida em que tive responsabilidades para com um rapaz pré-adolescente que tinha, por qualquer razão, muita dificuldade em expressar os seus sentimentos, negociar, ceder, aceitar, lidar com qualquer cenário que não fosse extremo. Ele só se sentia à vontade em conflitos. Assim, ele convertia qualquer situação numa luta. Na verdade, foi esgotante. Quando aprendia a desligar de toda a parte emocional – está a insultar-me, está a provocar-me, o que é que este pirralho pensou que era, esta não te tolero – ainda tinha de investir muita energia para redireccionar o conflito para alguma via de resolução, ou pelo menos de nenhuma deterioração, de nenhum agravamento. Porque sempre, na raiz de tudo, havia algo que clamava por ser resolvido, algo relacionado com a coexistência, higiene, a logística da vida quotidiana, algo realmente importante que acabava por ser empurrado para segundo plano pela emergência do conflito. Aquilo não acabou bem. Eu desisti. Eu capitulei. Eu desapareci. Por vezes é preciso perder para ganhar. Ou então, gostamos de pensar que por vezes perdemos.

Penso que algo deste género está a acontecer aos cidadãos de Madrid com o seu governo. O governo da Comunidade de Madrid é incapaz, por princípios ideológicos, de abordar as medidas necessárias para salvar a população de uma situação de crise sanitária que é o que é e que não admite discussão.

Numa emergência sanitária, é necessário pessoal de saúde. Isto é uma questão normal e corrente. Mas a ideologia dos partidos que apoiam o governo de Madrid não só não permite que esta possibilidade seja contemplada, como desde há décadas têm vindo a minar as condições de trabalho, salário, estabilidade laboral, horários e tudo o mais das pessoas que já estão empregadas, e sobre isto há tantos dados disponíveis que até aborrecem. Porque não acreditam na Saúde Pública, porque consideram que investir – ou gastar, do seu ponto de vista – em Saúde Pública é concorrência desleal com os seus amigos da saúde privada. Se as pessoas têm acesso a serviços de saúde razoáveis na rede pública, quem vai fazer um seguro privado? Se os trabalhadores da saúde têm boas condições de trabalho na rede pública de saúde, como é que a saúde privada vai competir na sua contratação?

Nesta emergência sanitária, é necessário aumentar a frequência dos transportes públicos. Mas um governo rendido a este dogma ideológico não pode fazer isso. Prefere enviar os seus porta-vozes para dizer coisas que são contrárias à lógica e negar o que é evidente em vez de contratar pessoal para conduzir comboios, autocarros e tudo o mais que for necessário. Não sei porquê. Também tenho uma ideologia, mas não consigo imaginar nenhuma situação em que o meu sistema de ideias me levasse a pôr em perigo a vida das pessoas. (Bem, claro, o que eu não tenho é poder. Se calhar será isso.) Mas ir ao extremo de inaugurar um distribuidor de gel hidro-alcoólico no metro no final de Setembro, quando no muito modesto supermercado do meu bairro o têm desde os primeiros dias do desconfinamento, é algo que vai ficar nos anais da desfaçatez.

E depois há a deriva para o conflito. Quando já não tem argumentos, só resta baixar para a lama. Começas por anunciar que vais contratar até dez mil professores, sabendo que não vais contratar ninguém, nem sequer por engano, e acabas por culpar a população, que é a única que tem estado à altura da tarefa desde que o estado de alarme terminou, por não ter sido suficientemente responsável. Desta vez vai ser que nos infetámos para além das nossas possibilidades. Quando a única ferramenta que te resta é um martelo, todos os problemas começam a parecer-se com pregos.

Assim, tomam-se medidas que parecem contundentes, mas que só são dirigidas contra os territórios onde vivem as pessoas que tiveram a audácia de não votar em ti, medidas que são irracionais do ponto de vista epidemiológico, fazes espetáculos com muitas bandeiras, vestes-te como uma bandeira se necessário, e recorres ao único pessoal para quem nunca há cortes no salário ou no pessoal: os funcionários públicos do bastão. Transformaste um problema de saúde pública num problema de segurança pública que se vai retroalimentar e crescer até que ninguém se lembre que o que havia era uma pandemia para enfrentar no início. O que pode correr mal?

Estamos em 2020, as pessoas gravam as coisas, podemos ver os vídeos. Dar uma cabeçada com capacete a uma pessoa, provavelmente um menor, a quem já imobilizaste não tem justificação possível. Por exemplo. E o verdadeiro problema continua a existir. As pessoas morrerão. Não há ideologia que sustente isto. Já chega.

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O autor: Alicia Ramos [1969-] é cantora-compositora de natureza eminentemente política. Depois de Ganas de quemar cosas acaba de editar o Lumpenprekariat. A sua proposta é bastante ácida, direta e devastadora, mas as pessoas interpretam-na como humor e riem-se muito. Ainda não teve quaisquer problemas com a Audiencia Nacional ou com a Associação Espanhola de Advogados Cristãos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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