Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A União Europeia irá cair, repentinamente, como um castelo de cartas
Roland Hureaux, revista Causeur, Março de 2016
A UE caminhará para a morte depois de uma longa agonia ou o Brexit assinará o início do seu verdadeiro fim?
(Photo : Photo.AP21311813_000008)
Como todas as obras humanas, da Torre de Babel aos impérios coloniais, a União europeia terá um dia feito o seu tempo. Os estrondos que se ouvem hoje: crises do euro, recessão, vagas migratórias fora de controlo, guerra na Ucrânia, podem deixar prever que este fim de vida está próximo. Qual o factor que lhe será fatal, a este edifício cujas bases, lançadas na corrente a partir de anos 50, parecem estar aferrolhadas: crise económica ou acontecimento militar ou ainda a eleição de uma maioria hostil num grande país-membro? Não se sabe.
O que se pode afirmar em contrapartida, sem temor de engano, é que esta queda se fará abruptamente, como aconteceu com a União soviética. Ainda que a União europeia, naturalmente, nunca tenha gerado até agora os horrores do sistema comunista [1], ela não é menos, também, um sistema ideológico, embora de uma espécie diferente. Poder-se-ia dizer que é um sistema utópico ou ainda, de acordo com a expressão de Hayek, um sistema construtivista . De Gaulle dizia “uma quimera”.
Efeitos contrários aos objectivos procurados
Para o descrever, poderíamos começar pelos seus efeitos: os seus efeitos sempre o contrário dos efeitos que se pretende alcançar . Lenine tinha prometido “o pão, a paz, a liberdade”, a URSS teve a fome, uma economia de guerra e a escravidão. As promessas dos pais fundadores da construção europeia: a prosperidade, uma influência mundial, a fraternidade, a paz, efeitos pretendidos mas todos dias desmentidos. A recessão, a desindustrialização, a crise agrícola, a vassalagem no seio da NATO, a ignorância cada vez maior das culturas e das línguas dos parceiros (em benefício do english básico) desqualificam diariamente estas promessas. Não foi só com a guerra na Jugoslávia e na Ucrânia que a Comissão de Bruxelas, como o disse muito bem Helmut Schmidt [2], teve a sua parte de responsabilidades, o que desmente a ideia que a construção europeia poderia ser um projecto de paz. Acrescentar-se-á : pensada para controlar a Alemanha, assegurou-lhe a supremacia.
Resulta um sentimento de absurdo suscitado não somente por estes contra-desempenhos mas também pela acumulação de regras que parecem arbitrárias (e que conduziram, por exemplo, por puro dogmatismo, ao desmantelamento de EDF), um sentimento que não pode deixar de nos levar a pensar no que prevalecia a no sistema soviético. Os antigos dissidentes deste último (Soljenitsyne, Zinoviev, Boukovski) foram de resto unânimes em sublinhar as semelhanças. Nos novos membros do Leste, os mesmos que apoiavam o comunismo tornaram-se os melhores partidários da integração europeia e os que resistiam continuam a resistir sempre.
Poder-se-á encontrar o nosso quadro negro. Os que estudaram o processo ideológico chegaram a uma constatação indiscutível: não se gera nada de bom . O que parece prosperar e que se coloca de maneira falaciosa sobre a conta da Europa de Bruxelas na verdade desenvolveu-se fora, sob forma de cooperação natural, sem carácter ideológico: Airbus, Ariane, o OCCAR[3]. Ao contrário, Galileo, puro produto da Europa de Bruxelas não sai dos limbos.
Um princípio único
O processo ideológico foi definido por Hannah Arendt [4] ou Jean Baechler [5]: consiste em governar a partir de uma ideia simples, demasiado simples, e por isso mesmo uma ideia falsa, uma ideia redutora do real, de que são tiradas todas as consequências incluídas as mais loucas (dado que nenhuma ideia concorrente vem pôr-se transversalmente). O comunismo dizia: os homens são alienados pela propriedade, suprimamos a propriedade e serão felizes. Os partidários da Europa supranacional dizem: a guerra devastou a Europa, é a culpa dos Estados-nações, suprimamos os Estados-nações para não ter mais do um só Estado continental, será a paz perpétua e, pela graça da concorrência e da moeda única, teremos a a prosperidade. Tudo o resto daqui decorre. Não se questiona se a guerra não provém sobretudo das ideologias do que das nações.
Os que fundam a sua política sobre uma só ideia pensam que ela é genial e que trará a salvação. Se ela se opõe a certas tendências naturais do homem (o sentido da propriedade, o sentido nacional), é necessário passar em força, se necessário contra o povo: o jogo vale a pena. Vê-se: nos ideólogos da Europa supranacional, a confiança não reina; sentem-se sitiados pelo chauvinismo, pelo proteccionismo, pelo nacionalismo, pelo populismo assimilados desde há algum tempo ao racismo. Daí o défice democrático (Junker: “ não pode haver escolhas democráticas contra os tratados europeus” [6], a intolerância a toda e qualquer oposição, o pensamento único, a burocracia e é necessário efectivamente acrescentar, o centralismo (a Europa que se construiu, em especial desde o Acto único de 1987, pode ser tudo menos federal)
Os ideólogos pensam que a ideia simples que professam deve transformar a condição humana; dividirão portanto a história entre um antes, feito de guerras, de confrontações, de fanatismo e um depois, mais ou menos paradisíaco. Mas se este projecto, fundado sobre uma ideia, é bom para os Europeus, sê-lo-á para todos os outros homens. Toda e qualquer missão ideológica tem uma vocação universal. O socialismo não podia estabelecer-se num só um país. A Europa de Bruxelas deve espalhar o seu ideal a todas as suas periferias: a Ucrânia, a Turquia e porque não amanhã o Magrebe e o Machrek? Ela dita já a moral a África. Idealista, ela é, de facto, imperialista.
Desconfiando da natureza (onde subsistem os maus instintos ), a ideologia desconfia também da cultura. Produto de um passado cheio de horrores, que se querem precisamente ultrapassar, é suspeita. Não se diz em Bruxelas “do passado fazemos tábua rasa ” mas a política cultural e educativa que aí é promovida, na base do arrependimento e da promoção do liberalismo-libertário (género, ultra-feminismo), tende a desvalorizar as imensas riquezas que este passado produziu. Por desconfiança do passado, e porque toda e qualquer ideologia é, de facto, uma religião secular concorrente, a ideologia só podia ser hostil ao reconhecimento das raízes cristãs da Europa. Raízes cristãs de que um amigo agnóstico nos diz que a sua negação é contrária à laicidade dado que a laicidade é fundada sobre o respeito da verdade, científica ou histórica.
A irreversibilidade, este calcanhar de Aquiles
O que carrega a palavra “construção” (do socialismo, da Europa) é uma tarefa prometaica cuja prova da justificação é não o bom funcionamento mas a marcha em frente. É por conseguinte irreversível. Como a bicicleta, ela cai se parar , um princípio que foi atirado à saciedade contra os oponentes dos tratados apresentados em referendo na França em 1992 e 2005: não ir mais longe, dizia-se, é pôr em perigo todo o edifício. Esta marcha em frente significa ao mesmo tempo o aprofundamento (“para uma união sempre mais estreita” como diz o tratado) e o seu próprio alargamento.
O princípio de irreversibilidade, que se aplicava já ao socialismo é o calcanhar de Aquiles da missão em questão, um factor de vulnerabilidade. Pode-se tomar uma outra comparação, a do castelo de cartas onde basta tirar uma só carta para que o castelo se desmorone. É por isso que tudo foi feito para manter Chipre , depois a Grécia, na zona euro, apesar do pouco que representa na economia do continente (respectivamente 0,1 e 1,2% do PIB europeu). O problema não era pois económico mas sim ideológico.
É por isso que o Brexit que poderia resultar do referendo britânico de Junho de 1996 compromete o futuro da construção europeia. Tecnicamente, poderia continuar sem o Reino Unido que não é receptor às duas políticas mais importantes (a moeda única e a livre circulação). Mas dado que a Europa de Bruxelas é uma construção ideológica que deve sempre seguir em frente, este malogro ser-lhe -ia insuportável e poderia precipitar o seu fim: quem ousará, após uma secessão britânica, impor seja o que for à Grécia, quando se der a próxima crise monetária?
É necessário por conseguinte esperar que as pressões mais fantásticas sejam exercidas sobre o povo britânico, a partir daqui ate Junho. A menos que os promotores da utopia cessem de acreditar, como o poder soviético no tempo de Gorbatchev. Tudo na altura se desenrolava muito rapidamente. É necessário esperar dado que a Europa que já caiu muito baixo não tenha ainda que sofrer dez ou quinze anos da era de Eltsine, com todas as desordens que isso implica , antes de voltar a partir novamente em frente, com os seus elementos de crise ultrapassados, sobre bases sãs, ou seja liberta de toda e qualquer ideologia.
Roland Hureaux, Revue Causeur, L’Union européenne tombera d’un coup comme un château de cartes. Texto disponível em : http://www.causeur.fr/union-europeenne-brexit-euro-schengen-37056.html
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Mas a União Europeia pode ainda desencadear uma guerra continental.
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Bild, 16 Maio 2014 ↩
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Organização de cooperação conjunta em matéria de armamento cuja sede é em Bona ↩
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Hannah Arendt, Le système totalitaire, Seuil, Collection Points, 1972 ↩
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Jean Baechler Qu’est-ce que l’idéologie? Idées-Gallimard, 1976 ↩
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Le Figaro, 29 janvier 2014 ↩



