Vamos, mais uma vez, voltar as costas às notícias do dia, nomeadamente à mensagem de Natal do primeiro-ministro, eivada de meias-verdades, sofismas e mentiras. Vamos deambular pelo labirinto dos conceitos – onde é fácil entrar e difícil encontrar uma saída. A mensagem de Natal de António José Seguro fornece-nos o mote – tudo o que disse, da «priorização das pessoas» à «necessidade de mudança», podia ter sido dito por um qualquer líder do PSD quando o PS foi governo. Podemos dizer que há dois partidos digladiando-se, opondo mutuamente argumentos ideológicos de matriz oposta? Achamos que não. Há, talvez, duas federações de interesses, perspectivando políticas similares, embora veiculadas por estilos diferentes. Como chegámos a isto?
Falámos aqui há dias em Alain Touraine e na sua afirmação de que o socialismo morreu.
A cavalgada «socialista» dos anos 80, em França, Grécia, Espanha e Portugal foi ganha por uma estirpe de políticos – Miterrand, Papandreu González, Soares que deram ao termo «socialismo» um novo significado e, sob o fogo cerrado da direita, tentaram demarcar-se do socialismo histórico, do socialismo de Estado. E tiveram êxito nessa demarcação – demarcaram tanto e de tal modo que sempre que foram governo e competiram com a direita na adopção de medidas neo-liberais. Provaram que um governo «socialista» pode ser tão ou mais repressivo política, económica e socialmente, do que um governo de direita. No fundo, os partidos socialistas deixaram de ser socialistas. Com o socialismo de Estado apoiado em ditaduras que, cercadas pela Guerra Fria que o capitalismo lhes movia, se tornavam cada vez mais repressivas e com os partidos socialistas a querer provar aos grupos económicos que podiam ser mais eficazes, o socialismo parecia morto.
Não está. Vive nos corações de quem ama a liberdade, a igualdade, a fraternidade… Não morreu, está em hibernação. Mas não deve ser procurado nos partidos que se intitulam «socialistas» e que trocaram o punho fechado pela rosa… O ideal socialista encontrará a saída do labirinto.
