O uso do véu Islâmico suscita um debate cultural, religioso e social, dado que as suas repercussões são extensas nos diversos âmbitos da vida quotidiana. Faz falta uma análise cuidada das implicações do mesmo nas mulheres que o usam e na sociedade que olha para essas mesmas mulheres.

A primeira ideia que me ocorre é a existência de uma “ identidade cultural” nas mulheres muçulmanas portadoras de véu, contudo se desconstruímos a ideia do uso do véu, concluímos que é muito mais que a simples criação de uma identidade cultural.
É impossível analisar o uso do véu desde um único conceito, já que não se pode designar de forma unívoca, as diferentes realidades que abarca. Se conectamos o conceito de “ identidade cultural” com o aspeto religioso islâmico, caracterizado pela igualdade de género no Corão, podemos indagar sobre o carater identificativo e promotor de “identidade cultural” e o seu uso como um elemento reivindicativo, responsável pela luta contra a discriminação de género.
A reivindicação é visível no uso do véu pela necessidade de recuperar os valores mais importantes do Islão, e ao mesmo tempo é possível conectar a condição das mulheres nos países muçulmanos, em que o regime despótico as conduz a uma submissão e violação dos seus direitos enquanto pertencentes ao sexo feminino. Segundo a lei Islâmica, o fato das mulheres colocarem o véu, quer dizer que as mesmas sejam reconhecidas publicamente pela sua identidade muçulmana, existe um reconhecimento social, transferindo aos seus maridos quando estão casadas esse mesmo prestígio. É contraditória a mensagem do uso do véu, já que está encoberto de feitos opressivos, mas ao mesmo tempo representa a liberdade identitária, para essas mesmas mulheres que vêem os seus direitos menosprezados.
Autores como Gonzàlez: 2009 remetem para a ideia de opressão manipulada:
“O uso do véu islâmico é um problema complexo onde o uso do mesmo na mulher muçulmana, mais que uma identidade cultural supõe um símbolo de opressão, ante o qual, essas mesmas mulheres se encontram indefesas pelas ações de quem tenta justifica-lo como um “mandato divino”. (González, 2009:8)
Nas sociedades Ocidentais, é um tema que envolve uma problemática, cuja solução se tornou muito complexa. Os países Europeus (como a França e Espanha) abriram um debate sobre o tema, um debate complexo que envolve fatores religiosos, culturais, políticos e sociais extremamente importantes. É importante tomar medidas adequadas que não encerrem o tema em soluções demasiado simplistas ou extremistas.
O caso francês é um exemplo inequívoco dessa proibição. Jacques Chirac, ex- Presidente da República Francesa, foi um dos rostos que defendeu, de forma intransigente, a interdição do uso do véu nas escolas e locais públicos, segundo a seguinte justificação:
“Se é um signo de submissão da mulher ao homem não é admissível porque dá carta à violação do direito de igualdade; se é um signo de peculiaridade cultural, em alguns casos hostil à cultura de acolhimento, deve subordinar-se aos signos de integração; se é somente um signo religioso, não cabe nos espaços públicos franceses, que são constitucionalmente laicos” (Discurso de Chirac, associação de Jovens Muçulmanos:2011)
Em 2005, a posição que tomou Chirac foi apoiada pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos no ano anterior, contudo esta decisão fomentava repercussões negativas, a proibição dava maior importância ao tema: tais como a privatização de escolas muçulmanas, temas nos quais se implicavam todos os muçulmanos. Torna-se por isso importante involucrar a sociedade neste caso francesa, a trabalhar com a mediação e recursos educativos, ao contrário de usar a proibição. A mediação neste caso seria muito mais eficaz, uma vez que é um método conciliador entre proibição e tolerância, ajudando a analisar um caminho entre os dois extremos e procura ao mesmo tempo sentimentos identitários profundos da vida conjunta. Penso que a solução não passa por culpabilizar as mulheres que usam o véu pois elas mesmas fazem parte de um contexto e circunstancias que as levaram a produzir esses mesmos costumes. O grande passo é pensar sobre nós e eles, aproximando as diferenças e tentando modificar atitudes. A mudança passa por uma reeducação, junto com medidas integradoras que favoreçam positivamente a eliminação de signos visíveis, mas com um justo posicionamento de valores identitários profundos.
Bibliografía
GONZÀLEZ, Mª (2009) .El uso del velo en la mujer musulmana, Oviedo.
RAMIL, A. (2011) Asociación de Jóvenes musulmanes, Velo y Burka, nada que ver, 14 de Abril de 2011.
