CARTA DO RIO – 114 por Rachel Gutiérrez

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“A História é um pesadelo do qual estou tentando despertar”, diz, em nosso nome, um personagem de James Joyce, no seu Ulisses.

 E eu pergunto: quando poderemos despertar do pesadelo de termos visto uma criança ferida, um menino de cinco anos, com o rosto ensanguentado e sujo de areia, atônito, em estado de choque, na interminável guerra da Síria? Como iremos nos recuperar da visão trágica dos outros dois meninos que soluçam e choram, e gritam e de novo se abraçam e choram desesperadamente a morte do irmão, mostrados pelas televisões do mundo inteiro?

   Que mundo é esse ?

   No Rio de Janeiro, e em todo o Brasil, tivemos uma pausa feliz, com a Olimpíada, que transcorreu razoavelmente calma, apesar da morte acidental, triste e injusta, de um soldado que veio do Nordeste para incorporar-se às forças do exército encarregadas da nossa segurança e que entrou, por engano, numa favela dominada por traficantes. Também houve o episódio dos nadadores norte-americanos mal comportados, que, numa brincadeira estúpida, denunciaram um falso assalto. Tudo isso, porém, ficou ofuscado pelo brilho extraordinário da festa da qual, brasileiros em crise, muito podemos nos orgulhar.

     A propósito da Abertura, Rosiska Darcy de Oliveira escreveu, de forma incontornável:

“No gramado do Maracanã submerso por um mar de cores e ritmos, da bateria das escolas de samba emergiu a multiplicidade de que somos feitos, a fraternidade de que somos capazes, a alegria que vem Deus sabe de onde, o muito que sonhamos para nós mesmos e que estamos longe de realizar, mas que existe na cultura como desejo e persiste como horizonte. Como os verdejantes anéis olímpicos e as sementes que os melhores atletas do mundo, gente forjada no esforço, na persistência e na excelência, vão deixar plantadas no nosso chão. Esforço, persistência e excelência.” Uma beleza de texto. E é tudo verdade.

Agora, longe do que aqui se realizou e nos deu tanta alegria além do sentimento de uma aliviada gratidão aos criativos organizadores da Festa, surge uma questão que me toca de perto, apesar de eu não viver na Europa e, aparentemente, não ter nada a ver com o assunto. Trata-se da polêmica sobre o uso dos chamados burquínis, pelas mulheres muçulmanas, nas praias da Riviera francesa. Ao que se saiba, não há burquínis ou equivalentes para homens muçulmanos que, imagino, usam qualquer tipo de calção “ocidental” quando vão à praia ou querem nadar. Os franceses, escandalizados talvez mais com o mau-gosto dos tais “maiôs” das mulheres do que com qualquer outra coisa, tentaram proibir o uso da esdrúxula indumentária em suas praias, considerando-o uma espécie de desrespeito ou provocação à tão decantada laicidade de seu país.

Sobre o problemático burquíni, a brilhante jornalista Dorrit Harazim escreveu neste último domingo, 28 de agosto:

“Ideia da australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, a peça fora criada em 2004 para ajudar a sobrinha da estilista a jogar handebol com a cabeça coberta. A prática do esporte sendo elemento tão fundamental na vida australiana, Zanetti quis criar um traje esportivo funcional para garotas muçulmanas.” (Aqui, jogadoras de vôlei de praia também o usaram.) Depois, a estilista teria verificado sua funcionalidade também nas piscinas e para enfrentar as ondas do mar. Declarou que “mergulhar na água é uma das melhores sensações do mundo.” E acrescentou: “E quer saber mais? Uso um biquíni por baixo do meu burquíni. É o melhor dos dois mundos”. (!)

Harazim termina seu artigo com a seguinte observação:

“Ao ensaiar a proibição do seu uso, a França corria o risco de se aliar ao que há de mais retrógrado no machismo do mundo islâmico.”

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Então pergunto: haverá algo mais retrógrado do que o machismo do mundo islâmico que passou a impor, como suposta tradição cultural e religiosa, o uso dos inúmeros véus que cobrem as suas mulheres notadamente depois de 1980 no século passado? Sim! Porque isso não é herança do Alcorão, é herança recentíssima, em termos históricos, dos talibãs e do Aiatolá Khomeini, que encontrou a Pérsia como um dos países mais avançados em relação às mulheres do Oriente Médio. A chamada “revolução iraniana”, que substituiu o Xá pelo aiatolá, ocorreu em 1979!  Foi só depois disso que o uso dos véus tornou-se obrigatório, embora se insista em dizer que muitas mulheres os usam voluntariamente.

Vejamos o que diz o Google sobre os véus:

“Hijabe ou hijab (do árabe: translit. ħijāb, ‘cobertura’; “esconder os olhares”; pron.: [ħiˈdʒæːb]) é o conjunto de vestimentas preconizado pela doutrina islâmica. No Islã, o hijab é o vestuário que permite a privacidade, a modéstia e a moralidade, ou ainda “o véu que separa o homem de Deus”. O termo “hijab” é, por vezes, utilizado especificamente em referência às roupas femininas tradicionais do Islã, ou ao próprio véu.

O hijab é usado pela maioria das muçulmanas que vivem em países ocidentais. A depender da escola de pensamento islâmica, o hijab pode se traduzir na obrigatoriedade do uso da burca, que é o caso do Talibã afegão, até apenas uma admoestação para o uso do véu, como ocorre na Turquia. Na atualidade, o hijab é obrigatório na Arábia Saudita e na República Islâmica do Irã, além de governos regionais noutros países, como na província Indonésia de Achém.”

Volto ao Irã apenas para lembrar acontecimentos recentes na vida de uma mulher, cuja inteligência absolutamente extraordinária conquistou o mundo. Trata-se da matemática Maryam Mirzakhani nascida em Teerã, a primeira mulher da História a receber a medalha Fields, conhecida como o prêmio Nobel da Matemática. Pois ela teve sua imagem censurada em seu próprio país, onde os jornais publicaram fotos sem mostrar seus cabelos, orelhas e pescoço, mas apenas imagens alteradas (e com os devidos véus!) por meio de photoshop!

Faço questão de mostrá-la aqui – sem véu! – num vídeo que revela momentos de sua vida e de seu trabalho na Universidade de Stanford, na América do Norte. E me permito sonhar com o dia em que esse tipo de pesadelo não mais nos inquiete e atormente.

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