
ESPANHA, EXISTE?
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ESPANHA: NAÇÃO, TERRITÓRIO E UNIÃO COMUNITÁRIA
SÍLVIO CASTRO
Uma das marcantes predisposições do pensamento e ação política contemporâneas consiste na forte predisposição à Organização Comunitária dos países de um singular espaço territorial. Isso até mesmo acontecendo com existência de algumas, ainda que limitadas, concessões de certos países sobre a própria dimensão de nacionalidade.
A Europa e as Américas já desenvolvem uma grande ação nesse sentido. Assim acontece com a talvez demasiadamente vasta União de 27 países europeus, e mais equilibradamente quanto aquelas outras dos povos da América do Sul, com o Mercosul, e a do Norte, com uma organização na qual pesa demasiadamente o poder decisional Usa. Por isso mesmo o Brasil sempre se opôs a uma unificação entre os dois mercados americanos. Para o governo brasileiro, fortemente empenhado na vida comunitária ditada pelo Mercosul, o Mercado dos países do Norte da América deve continuar a ser um importante, ainda que totalmente autônomo, partner econômico, assim como o é para a Comunidade Européia, na qual o Brasil aparece como o primeiro país historicamente tomado com particular acordo quanto aos relacionamentos político-econômicos entre as duas partes.
Diante desta predisposição de comportamento de povos e nações, tornam-se algo obsoletas as pretensões de determinadas zonas territoriais a movimentos de secessão, mesmo quando munidas de especifícas características regionais fortemente distintas daquelas nacionais. É o que acontece quando tomamos em consideração as constantes discussões sobre a existência ou não da Espanha como nação. As sempre presentes reivindicações de independência dos catalães, dos bascos e dos galegos se chocam com quanto enunciado acima sobre as mais acentuadas tendências contemporâneas da política internacional.
Porém, diante das justas afirmações das características de povos e culturas merecedores de mais autonomia, em relação a uma nação juridicamente unitária somente a partir da Constituição de 1810, a tendência política hodierna leva a considerar que, dentro desta Nação, que é a Espanha, possa justamente existir regiões autônomas, como acontece com a Itália em relação ao Trentino- Alto Ádige, à região Aosta, à Sicília e à Sardenha.
A questão da unidade da Espanha sempre foi causa de grandes confusões e êrros interpretativos nos campos conceituais de determinadas realidades físicas. Isso não somente dentro do território hespanhol, mas igualmente no plano cultural exterior. Desde muito tempo nasceu e ainda encontram-se em circulação idéias confusas aa partir da Espanha e os conceitos menos concretos de Hispania e Ibéria. Por muito tempo até mesmo a cultura portuguesa foi envolvida em tais dilemas. Em verdade Portugal jamais teve a que ver com a Hispania, ainda que enquanto componente geográfica da península ibérica, possa ser ligada ao conceito de Ibéria. Quando no século XIX português, sempre em efervecência, podia-se compreender a existência da utopia de uma unidade hispânica, grata a grandes inteligências como aquela de Oliveira Martins e de outros mentores da revolucionária Geração de 70, isso era razoável. Mas, só até então.
A confusão entre Hispania e Ibéria reina fortemente na imprensa internacional quando a mesma trata dos povos e dos países latinos do território americano. Assim, falando de literatura, tais desinformados usam sem grande atenção crítica o conceito de produção literária hispânica, englobando igualmente o Brasil, o qual, em verdade, praticamente nada tem a que ver, nem no plano literário e nem igualmente naquele geral da cultura, com a definição de Hispania. Enquanto a Ibéria, tal conceito geográfico pode ser usado como metonímia quando se fala da Espanha e de Portugal, na Europa, e mais metaforicamente quando em referimento aos países de língua castelhana da América latina. Se realmente se deseja alargar ainda mais a metáfoca, pode-se considerar que também o Brasil tem raízes ibéricas.
Diante de tais considerações, não vemos maiores procedências na discussão sobre a existência ou menos de uma Espanha enquanto nação na forma como a formou a sua Constituição de 1812.

